Plínio Bortolotti

A ilusão da vigilância eletrônica para aumentar a segurança

Reprodução da coluna “Menu Político”, caderno “People”, edição de 12/2/2017 do O POVO

A ilusão da vigilância eletrônica para aumentar a segurança

Tenho a forte impressão de que a imprensa em parte é responsável pelo sucesso de figuras como João Doria prefeito de São Paulo, não porque esteja “a serviço da burguesia”, como quer certa esquerda, mas pelo hábito de deixar-se atrair loucamente por factoides: agora mais do que nunca, em busca de cliques, “curtidas” e “compartilhamentos” nas redes sociais.

Que importância tem, por exemplo, um cara habituado a transitar com uma blusinha de cashmere “casualmente” jogada às costas e, de repente, aparecer fantasiado de gari, simulando a varrição de uma praça? O negócio devia ir lá para o cantinho das variedades, miudezas, mas ganha destaque nos jornais e portais, porque “as pessoas querem ver”, e nas TVs, sempre ávidas por “personagens” para “dar cor” à notícia.

Agora, na sua guerra contra as pichações, Doria diz que vai instalar 10 mil câmeras para flagrar pichadores em plena ação para multá-los. Duas coisas: 1) ele corre o risco de sair derrotado da peleja, pois os pichadores podem se sentir desafiados, sendo precisamente isso que move o trabalho deles; 2) mais câmeras resultarão em nada: quem vai vigiar os 10 mil olhos eletrônicos?

O fetiche por tecnologia, para a resolução de problemas complexos – a exemplo de prometer “um computador” por aluno -, costuma terminar de forma lamentável, pois a técnica é apenas um meio e não um fim em si mesmo, uma bala de prata para toda e qualquer mazela. Quem gosta muito disso são as empresas que vendem esses equipamentos, junto com a ilusão de que basta instalá-los para tudo se transformar como um encanto.

Em Fortaleza mesmo, em março de 2015, o prefeito Roberto Cláudio anunciou diversas ações para a “gestão de resíduos sólidos”, entre as quais o “sistema eletrônico de controle” com georreferenciamento de contêineres dos grandes produtores de lixo e, ainda, aplicativos para que a população pudesse denunciar o descarte irregular. O fato de haver essas facilidades eletrônicas acabou com as rampas de lixo? O aplicativo é absolutamente desnecessário, pois basta uma pequena volta pela cidades, em qualquer bairro, para ver monturos acumulando-se nas calçadas. Portanto, não é a falta de traquitanas eletrônicas o busílis da incógnita, o problema é outro.

Mas o que ia escrever, logo no início, porém me perdi na digressão, era a respeito de uma entrevista, divulgada pela agência Pública, com o sociólogo Bruno Cardoso. Ele passou sete meses observando o trabalho dos policiais no Centro de Comando e Controle da Polícia Militar do Rio para escrever sua tese de doutorado, que resultou no livro “Todos os olhos – videovigilâncias, voyerismos e (re)produção imagética”, da editora UFRJ. (Já notaram como teses acadêmicas têm sempre nomes longos e meio cabalísticos?)

Segundo a Pública, o sociólogo chegou à seguinte conclusão: “Observando os observadores, Cardoso testemunhou como a expectativa de uma solução mágica para os crimes na cidade foi se transformando em ‘decepção’ aos olhos dos policiais. Tarefa tediosa, repetitiva, com pouca chance de algum sucesso real em fazer um flagrante ou impedir um crime, a videovigilância foi aos poucos, segundo ele, sendo ‘deixada de lado’ nas prioridades do governo”.

Pois é, Doria, o jogo começa 1 X 0 para os pichadores.

NOTAS

Imagem
Bruno Cardoso chama de “sobredeterminação técnica” o fato de a tecnologia da videovigilância ser composta de máquinas e homens, porém “pensadas de forma separada”. Para ele, é recorrente o discurso de que a máquina “faz tudo”, ignorando-se a necessidade de um olho humano para que “a imagem se transforme em imagem”.

Imprensa
Como a imprensa aborda a questão da videovigilância:
“Sempre de forma elogiosa. Chama-me muito a atenção o fato de que não teve nenhuma reportagem ou inserção crítica na imprensa brasileira, ou que levantasse os perigos da videovigilância. Era como se fossem matérias encomendadas pela Secretaria de Segurança”.

Monitoramento X segurança
A entrevista de Bruno Cardoso à agência Pública faz parte de uma matéria mais ampla, “Especial vigilância”. A reportagem mostra que o videomonitoramento é ineficiente para aumentar a segurança pública, mas funciona bem no controle de protestos e para “amedrontar jovens manifestantes”. Para o sociólogo, videomonitoramento é efetivo para “esvaziar manifestações”, sendo uma forma de “controlar a cidade”, sem a capacidade de torná-la mais segura. Vale a pena a leitura.

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