Plínio Bortolotti

Reforma trabalhista é a grande batalha dos bancos

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Reprodução da coluna “Menu Político”, caderno “People”, edição de 21/5/2017 do O POVO.

Reforma trabalhista é a grande batalha dos bancos

Por meio de post no Twitter, em comentário do jornalista Mauro Malin, cheguei ao texto de Raquel Balarin no jornal Valor Econômico, com o título “Juros? Não. Banco quer reforma trabalhista” (24/8/2016). No artigo, ela sustenta que uma possível queda nos juros – que poderia drenar-lhes lucratividade – não é hoje a preocupação central dos bancos.

Sem entrar no debate sobre o mérito do tema, a jornalista diz que defender a reforma trabalhista é a grande batalha (expressão minha) do sistema bancário. Para ela, esse é um dos assuntos que “mais têm dado dor de cabeça às instituições financeiras”. Balarin cita “um grande banco” no qual o número de ações trabalhistas corresponde a três quartos do total de funcionários. E, segundo a queixa dos banqueiros, escreve a jornalista, “a Justiça tem sido solidária aos assalariados que enfrentam os gigantes e lucrativos bancos”.

Altamente lucrativos, sem dúvida, os bancos são, independentemente da conjuntura econômica. Estudo feito com base em dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) mostra que o lucro somado de quatro dos principais bancos brasileiros (2013) – Banco do Brasil, Itaú, Bradesco e Santander – foi maior do que o Produto Interno Bruto (PIB) de 83 países. Mesmo o lucro tendo recuado quase 20% neste primeiro trimestre de 2017, em comparação com o ano passado, o lucro líquido dos quatro grandes bancos somou R$ 50,29 bilhões.

Em meio à crise, qual outro setor da economia pode apresentar números tão lustrosos? Ou seja, com ou sem reforma, com crise ou sem crise, os bancos passam o rodo em cima do pano verde. Além disso, estudo do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese) mostra que somente com tarifas bancárias, cobradas dos clientes, os bancos arrecadam valor superior ao que despendem em suas respectivas folhas de pagamento.

Por coincidência, no domingo passado, falando no Brazil Forum UK 2017, em Oxford (Reino Unido), o dono do Itaú Unibanco, Roberto Setubal, confirmou as palavras da jornalista, ao fazer a defesa intransigente da reforma trabalhista, alegando que a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) é “muito detalhista, burocrática e intervencionista ao extremo”.

O bilionário ensinou: “Se não criarmos uma legislação trabalhista equilibrada, que dê condições para as empresas aumentarem a produção e gerarem riqueza, enfrentaremos um problema sério. Nunca teremos como resolver nossos problemas sociais”. Para Setubal, a reforma vai gerar retomada do crescimento econômico e favorecer a criação de empregos.

O negócio é que, mesmo com uma legislação “detalhista”, com a economia em frangalhos, os bancos continuam lucrando. E demitindo empregados em massa. Por que ainda atacam a legislação trabalhista? Amor ao país ou amor ao dinheiro?

É fato que, reduzindo encargos e “flexibilizando” exigências legais, o “custo” ao contratar empregados ficará mais baixo. No entanto – do mesmo modo que aconteceu com a “desoneração” de impostos concedida por Dilma Rousseff -, não há automática redução do desemprego devido a isso. O mais provável é que banqueiros e empresários optem por dilatar a carga de trabalho e embolsar o lucro adicional, em vez de contratar mais empregados.

Os bancos sabem direitinho como fazer isso; vêm fazendo há muito tempo. E a perspectiva é que – com ou sem reforma trabalhista – continuem a fazê-lo.

NOTAS

REFORMAS
O presidente Michel Temer avalia que as reformas trabalhista e previdenciária são importantes para a retomada do crescimento da economia, mas nega que o sucesso de seu governo dependa disso. (É duvidoso, pois essas duas reformas são exigidas pelo “mercado”, a sua única “base” de sustentação; se fracassar nisso, estará sozinho.)

DESEMPREGO
Para o presidente, a questão central é a redução do desemprego, que ele diz que vai ceder em 2018, com ou sem reformas. “O meu principal objetivo é combater o desemprego. Se não conseguir, aí sim você pode dizer que o governo não deu certo”. (Estado de S. Paulo, 13/5/2017)

CRÉDITOS
Mauro Malin: Temer agora liga seu destino ao desemprego; Valor Econômico: Juros? Não. Banco quer reforma trabalhista; BBC Brasil: CLT é “detalhista, burocrática e intervencionista ao extremo” diz dono do Itaú-Unibanco ao defender reforma trabalhista.

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