Plínio Bortolotti

Falta de diversidade fica evidente na polêmica Folha X Globo

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Reprodução da coluna “Menu Político”, caderno “People”, edição de 4/6/2017 do O POVO.

Falta de diversidade fica evidente na polêmica Folha X Globo

A polêmica envolvendo dois jornalistas dos mais importantes meios de comunicação mostra a necessidade de se debater mais a imprensa no Brasil e o mal que provoca a falta de diversidade observada na mídia.

Quem começou o debate foi Marcelo Coelho, integrante do Conselho Editorial da Folha de S.Paulo. Em artigo com o título “Sem vozes divergentes, Globo embarca em precipitações no caso Temer”, ele observa que os adversários (de Temer) não esperavam que viria da Rede Globo a notícia que iria tornar “praticamente inviáveis as reformas liberais de seu governo”, cravando a sua opinião que a emissora apoiava a política governamental.

Depois de rejeitar várias teorias conspiratórias que circulam tentando explicar a suposta guinada da Globo, o jornalista diz entender a virada devido ao “hábito mental” da emissora de se “recusar a perceber a realidade”. Coelho dá como exemplos a campanha pelas eleições diretas, que a TV evitava noticiar (1984), o “caso Proconsult”, no qual, supostamente, a Globo teria manobrado para ocultar a vitória de Leonel Brizola ao governo do Rio (1984) e a “escolha seletiva” dos trechos do último debate entre os presidenciáveis Fernando Collor e Lula (1989).

Coelho anota que, “em intensidade e concentração no tempo, os ataques a Temer e Aécio foram piores do que qualquer coisa já feita pela Globo”. E, para ele, “o problema é que não havia uma visão divergente”, sendo que os profissionais da Globo “passam a bola”, um para o outro, com o jogo assemelhando-se a uma cobrança de pênaltis sem goleiro”. E acrescenta que, em muitos programas de debates, os convidados se dividem em “tucanos de esquerda, tucanos de centro e tucanos de direita”.

A resposta em nome da Globo coube ao seu diretor de Jornalismo, Ali Kamel, em artigo na mesma Folha de S.Paulo, afirmando que Coelho “começa mentindo” ao dizer ter vindo da Globo as denúncias contra Temer, quando são oriundas de investigação da Procuradoria Geral da República. Acrescenta também, como “mentira” de Coelho, o fato de ele dizer que foi “a Globo” (TV) quem deu a notícia em primeira mão, pois foi “O Globo” (jornal) a fazê-lo, garantindo que as redações são “absolutamente independentes umas das outras”.

Kamel também rebate os “sempre mencionados erros atribuídos à Globo”, afirmando reconhecer um deles “parcialmente” (o das eleições diretas), “refuta” outros (Proconsult e “invenção” de Collor) e admite equívocos na edição do debate de 1989. O diretor de Jornalismo da Globo diz que Coelho “prefere realçar os ataques à Globo, mas omite aqueles que a própria Folha sofre, quando, justa ou injustamente, é chamada de Falha de S. Paulo por seus supostos erros”.

Para Kamel, “o que mais choca”, sendo “ultrajante”, é a “acusação vil” contra o que ele considera “um dos melhores times de jornalistas do Brasil, os da Globo News”, que se preocupariam em levar ao público as mais diversas visões.

O que é dito tanto por Coelho quanto por Kamel aponta para a mesma direção, a falta da diversidade na grande mídia brasileira, comandada por meia dúzia de famílias, que controlam o que o restante da população lê, ouve ou vê. É uma situação vista em poucos países do mundo e que tem de ser consertada para o bem da democracia.

NOTAS

GLOBO X FOLHA
Talvez exista diferença entre a Folha de S. Paulo e a Rede Globo nessa polêmica. A Folha permitiu que seu colunista fosse contestado nas suas próprias páginas, oferecendo o direito de resposta. É duvidoso que a Globo abra espaço em sua programação para debater o assunto de forma frequente e consistente, como o tema exige.

CRÉDITO
Na coluna da semana passada escrevi sobre a guinada da Globo em relação ao governo Michel Temer. O artigo foi publicado no domingo, porém, entreguei ao editor na terça-feira, antes portanto da polêmica Coelho X Kamel; Marcelo Coelho (Folha de S. Paulo): Sem vozes divergentes, Globo embarca em precipitações no caso Temer; Resposta de Ali Kamel (Rede Globo): Vamos falar de Coelho?

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