Plínio Bortolotti

O medo à liberdade

Reprodução do artigo publicado na editoria de Opinião, edição de 28/9/2017 do O POVO.//

O medo à liberdade//

Hamilton Mourão, general reincidente em opinar em assuntos fora da alçada militar, afirmou que caberia às Força Armadas resolver o “problema político do país”, caso o Judiciário não o fizesse.

Se o Brasil houvesse feito como a Argentina, o Chile e o Uruguai, que processaram e prenderam os militares que cometeram crimes durante a ditadura, certamente seriam desestimuladas declarações do tipo: um general da ativa ameaçando com um novo golpe de força, como se não bastassem os estragos provocados nos anos 1960/70.

Talvez seja também por isso que ecos da ditadura ainda ressoam em espíritos tíbios, à espera de um “homem forte”, que possa protegê-los dos perigos do mundo. Os amantes das ditaduras são crianças desamparadas, falta-lhes destemor para comandar a própria vida. Clamam por um “pai” disciplinador, que ponha “ordem na casa”. Temem os perigos da liberdade.

Por outra vista, existem aqueles que não se importam com o tipo de regime, desde que seus negócios estejam assegurados. A ex-presidente Dilma Rousseff foi derrubada por dirigir um governo corrupto, diziam. Essas mesmas vozes hoje convivem alegremente com o “quadrilhão do PMDB”, pois o partido, afinal, está fazendo as “reformas” exigidas pelo “mercado”. E muitos desses sujeitos estão dando tapinhas nas costas de Jair Bolsonaro – e isso já diz muito sobre o caráter deles.

Ou alguém viu alguma entidade empresarial ou dos ruralistas contradizer o general insubordinado? E se fosse algum movimento social ameaçando usar a força para acabar com com a “roubalheira” e impor a “ordem” no país?

Ok, alguém vai lembrar o blablablá da maliciosa interpretação do artigo 142 da Carta de 1988 (qualquer iletrado verifica que ali não se permite “intervenção constitucional”). Mas, assim sendo, outro poderia convocar o primeiro artigo da Constituição, em seu parágrafo único: “Todo poder emana do povo…”, reivindicando para as “massas” o direito de fazer a “limpeza”.

Então?

PS. O nome do artigo repete título de livro do psicanalista Erich Fromm.

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