Plínio Bortolotti

Carne sintética deverá chegar logo aos supermercados

Reprodução da coluna “Menu Político”, caderno “People”, edição de 5/11/2017 do O POVO.

Carne sintética deverá chegar logo aos supermercados

O primeiro hambúrguer de carne sintética foi produzido em 2013, mas ainda não está na prateleira dos supermercados devido ao custo, por enquanto, proibitivo. O autor da façanha foi o professor Mark J. Post e sua equipe da Maastricht University (Holanda), que passaram sete anos pesquisando o assunto. Post afirma que a produção em escala fará o custo cair e estima que o produto estará no mercado em cinco anos.

Em entrevista à revista Brasileiros, ele explicou que técnica consiste em extrair células de um músculo da vaca e depois expandi-las em laboratório, “desenvolvendo o tecido por auto-organização”. Essas fibras musculares são muito semelhantes, “se não iguais, às fibras de músculo fresco proveniente de uma vaca”.

O processo não exige o sacrifício nem maltrata o animal, e as células cultivadas podem render “toneladas de carne”. Segundo o professor, o bife sintético terá o aspecto do original, com músculos, sangue e fibras, e sabor parecido. O método pode ser aplicado para obter o mesmo resultado em qualquer outro animal.

A preocupação com o tipo e a quantidade de alimentação disponível sempre esteve presente na história da humanidade, desde os primórdios. No século XVIII, o economista Thomas Malthus afligia-se observando que a população mundial crescia em progressão geométrica, enquanto a produção de alimentos progredia aritmeticamente, o que terminaria em catástrofe, se não houvesse controle da natalidade. A tecnologia cuidou de resolver o problema.

O problema de hoje não é a falta de alimentos – pois a produção é suficiente para alimentar todos os habitantes do mundo -, porém a distribuição desequilibrada, ou seja, a desigualdade social. Atualmente, outras questões se impõem, como o esgotamento dos recursos naturais do planeta, a poluição e a busca de um relacionamento mais ético com os animais.

Desde 1969, a Global Footprint Network calcula o chamado Dia de Sobrecarga da Terra. Avaliando, a cada ano, o quanto a população terrestre consome de recursos e a capacidade de regeneração da natureza. Em 1987, pela primeira vez, a data caiu antes do fim do ano, em 9 de dezembro.

Desde então, essa data chega cada vez mais cedo; este ano os recursos haviam sido consumidos no dia 2 de agosto. Com essa pegada, a humanidade precisaria de 1,7 planeta Terra para regenerar os recursos consumidos. Ou seja, a humanidade vive de um empréstimo do ecossistema, que não terá como pagar – e nos levará à catástrofe, se a ciência e tecnologia não vierem nos socorrer.

A produção de carne sintética também pode ser útil para ajudar a resolver uma parte desse dilema. Estudo revelou que a carne cultivada usa 45% menos de energia; produz 96% menos emissões de gases de efeito estufa e utiliza 99% menos de terra, em comparação com a pecuária.

Mas a carne cultivada tornou-se um negócio milionário. O pesquisador Mark Post abriu uma companhia, a Mosa Meats, para disputar o mercado. A empresa americana Hampton Creek quer ser a pioneira no mercado, pondo o produto à disposição do consumidor até o fim do ano. Dezenas de start ups, as novas empresas de tecnologia, estão investindo no ramo, tanto no cultivo de carne a partir de células-tronco quanto em alternativas vegetais, que imitem o gosto de um bife.

Portanto, a guerra de proteínas, livre do sofrimento animal, está apenas começando e pode levar à extinção de dinossauros do tipo JBS.

E será que veganos, que não consomem carne por questões ideológicas, a defesa dos animais, aceitarão comer um bife sintético?

NOTAS

BISCOITO SINTÉTICO
A propósito, a carne cultivada nada tem a ver com o biscoito sintetizado a partir de alimentos descartáveis que o prefeito de São Paulo, João Doria, queria distribuir à população pobre da cidade. O granulado de Doria, pelo uso que o prefeito queria fazer dele, se parece mais com Soylent Green.

SOYLENT GREEN
No filme de ficção científica “No ano de 2020” (1973), um detetive, interpretado por Charlton Heston, investiga o assassinato do executivo de uma empresa produtora de comida sintética, o biscoito Soylent Green, distribuído para alimentar a população pobre. A investigação leva à descoberta chocante sobre os ingredientes usados na sua composição.

CRÉDITO
Revista Brasileiros: Você vai comer carne de laboratório?; Época Negócios: Empresa dos EUA promete lançar carne artificial em 2018; Conexão Planeta: Dia da Sobrecarga da Terra.

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