Plínio Bortolotti

Google, Facebook e o monopólio da informação

Reprodução da coluna “Menu Político”, caderno “People”, edição de 3/12/2017 do O POVO.

Google, Facebook e o monopólio da informação

Quem nunca sentiu vontade de ser funcionário do Google ou do Facebook, vendo aquelas imagens de um escritório futurista, pufes coloridos e pessoas que parecem estar se divertindo em vez de trabalhar? Talvez você mude de ideia ao ler o depoimento de um “checador” do Facebook, trabalhando oito horas por dia, de segunda a sexta-feira por um salário mínimo: “A meta para cada revisor era avaliar, por dia, 3.500 fotos, vídeos e textos denunciados. Mais de sete por minuto, ou um a cada 8,5 segundos”. (Portal BBC Brasil.)

Quantas vezes você já viu, desde que surgiu a onda da internet, os donos das empresas de tecnologia se apresentarem como os novos gurus da humanidade, espécie de semideuses cultuados por legiões de “fãs” e pensou: “Esses caras são mesmo benfeitores da humanidade”?

De minha parte, sempre mantive reserva, observando a manada. Por hábito profissional (se bem que o ceticismo parece andar em falta no mercado) e por ter vivido um bocado de décadas, aprendi a não crer em milagres, sejam eles anunciados por profetas digitais ou analógicos – e também a tomar cuidado com discípulos exaltados. Mas sei que a vaga é por demais poderosa e há de nos arrastar a todos se o pancadão continuar no mesmo ritmo.

Já abordei o assunto algumas vezes nesta coluna e a inquietação voltou a assaltar-me depois de ler a ótima resenha – escrita para a revista Exame pelo jornalista Diogo Rodriguez* – do livro “World without mind – The existential threat of big tech” (“Mundo sem mente – A ameaça existencial das grandes empresas de tecnologia”, em tradução livre), de Franklin Foer.

Diogo considera o livro uma espécie de complemento do longa-metragem “O Círculo”, que narra a história de Mae Holland, contratada por uma grande empresa de tecnologia, cujo nome dá o título ao filme. Era o emprego dos sonhos, com ambiente de trabalho encantador, muitas festas, alojamentos gratuitos e outros benefícios sociais, assim como o Google e o Facebook.

Porém Mae acaba se tornando uma espécie de prisioneira do Círculo, quando experimenta uma nova tecnologia da empresa, uma minicâmera que filma todos os seus passos. Sua vida passa a ser acompanhada por milhões de pessoas. Os políticos também começam a usar o dispositivo, pois, segundo a propaganda da empresa, a “transparência total” seria uma “nova era de democracia mundial”.

No livro – continua Diogo – Foer centra-se no aspecto ideológico dessas empresas, mostrando a contradição entre o discurso e a prática. Exigem a transparência dos outros, porém agem na obscuridade. Para o autor do livro “o que começou como um sonho agitado – a humanidade unida em uma única rede transcendente – tornou-se a base do monopólio”. E vê a concentração do poder do Google e do Facebook como “pretexto para a dominação”. Para ele, o que essas empresas querem – principalmente o Facebook –é a intimidade dos indivíduos, o que Foer chama de “transparência radical” ou “transparência final”.

E, como há muito se sabe, informação é poder; assim, quem controla todas as informações tem poder total. Portanto, nem é preciso dizer que tal estado de coisas constitui-se perigo para a democracia. Afinal, claridade demais também cega.

NOTAS

GOOGLE
Encontrei uma entrevista de Franklin Foer na qual ele comenta como o jornalismo foi atingido negativamente por essas empresas de tecnologia; o mesmo que a Amazon fez com a indústria de livros. (A propósito, usei o Google para fazer as pesquisas, para escrever este texto e para enviá-lo ao editor.)

SEM-TETO
Reportagem na Folha de S. Paulo expõe como o alto preço dos aluguéis no Vale do Silício (Califórnia) – onde estão instaladas as empresas de tecnologia – aumentou a quantidade de moradores de rua. Pessoas com “empregos regulares”, mas que não podem mais pagar três mil dólares de aluguel. O “boom da tecnologia” produziu jovens com “patrimônios astronômicos” e, na outra ponta, reduziu pessoas à pobreza.

CRÉDITO
Revista Exame: Os perigos do domínio de Google, Facebook e Amazon; Universidade da Pensilvânia (em português): Um mundo sem mente: a perigosa influência do Big Tech; BBC Brasil: A rotina do brasileiro que moderava posts denunciados no Facebook; Folha de S.Paulo: Carro vira moradia para trabalhadores do Vale do Silício.

*Corrigido às 19h36min de 3/12/2017: Rodriguez, com “z” é o correto, antes grafado equivocadamente com “s”.

 

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