Plínio Bortolotti

O mito do livre mercado

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Reprodução da coluna “Menu Político”, caderno “People”, edição de 10/12/2017 do O POVO.

O mito do livre mercado

“Poucas ideias envenenam tanto a nossa mente como a de um livre mercado, que existe em algum lugar do universo e é atrapalhado pelo governo. Não existe livre mercado sem o governo ditando as regras do jogo (…) Há esse mito que existe regulamentação e desregulamentação. Não há essas coisas. A questão é o tipo de regulamentação. A questão não é se o governo não será envolvido, mas como vai se envolver.”

Os trechos que mais me chamaram a atenção no documentário “Salvando o capitalismo” (Netflix) foram os reproduzidos acima. Eu também era prisioneiro do falso dilema regulamentação X desregulamentação. Ou seja, sendo a favor da “regulamentação”, eu me sentia em confronto com os que defendem a “desregulamentação” da economia.

As palavras de Robert B. Reich tornam as coisas mais transparentes. Ou seja, a falsa dicotomia entre “reguladores” e “desreguladores” – a disputa se dá em relação ao tipo de “regulagem” que será aplicado ao motor da economia. Ok, pode ser uma banalidade, porém o óbvio por vezes escapa ao cidadão comum, devido ao discurso, repetidos à náusea, inclusive pela imprensa, sobre a necessidade de retirar o governo do caminho para “destravar” a economia.

E, atenção, Reich não é nenhum perigoso “comunista”, é o tipo de homem que classifica Bernie Sanders (o candidato de tinturas “socialistas” nas recentes eleições americanas) e Donald Trump como as duas faces do populismo. Ele é professor de Políticas Públicas na Universidade de Berkeley, foi secretário do Trabalho no governo de Bill Clinton e é autor do livro que inspirou o documentário, com o mesmo título.

Reich parece um sujeito bem-humorado: conta como apresentou Clinton a Hillary; foi amigo do casal e militaram juntos no movimento estudantil. Afirma haver dois tipos de reação ao seu livro. “O que está errado com o capitalismo?”, perguntam alguns; outros o questionam: “Para que salvar o capitalismo?” – e ri da própria piada. Conclui o filme fazendo uma dancinha engraçada para mostrar a importância da leveza na vida, mesmo lidando com assuntos ásperos, como economia e política.

Um caso exemplar aconteceu com ele, na década de 1970, quando estava na Comissão Federal de Comércio do governo e resolveu criar “rígidas restrições” à propaganda dirigida às crianças. Diz ele que as empresas de produtos açucarados e de brinquedos ficaram “enfurecidas” e gastaram “milhões de dólares” em campanha contra as restrições.

Além de derrubarem a nova lei, as indústrias conseguiram também fechar a comissão. “O que descobri é que as grandes empresas, Wall Street e os mais ricos podiam mudar as leis e regulamentações para se favorecerem e prejudicarem os outros”. (Atualmente a obesidade é uma epidemia nos Estados Unidos.)

Desde a década de 1990 – como se pode ver gravações de antigos discursos -, ele vem alertando sobre o sentimento de “raiva e frustração” da classe trabalhadora americana. “Ninguém os está ouvindo”. (Desaguou em Donald Trump.) Reich atribui esse rancor a uma classe política insensível – que despreza as necessidades da maioria da população -, e à influência cada vez maior do empresariado e do sistema financeiro nas políticas públicas. “Muita gente vê que o sistema é manipulado, mas não sabe exatamente como”.

(Qualquer semelhança com o Brasil não terá sido mera coincidência.)

Para Reich, “a grande questão é se o sistema vai beneficiar a maioria ou um grupo muito pequeno, que está no topo da pirâmide” – e isso pode definir o futuro do capitalismo.

NOTAS

EM FAVOR DAS PETROLEIRAS
Um exemplo de regulamentação que favorece os grandes complexos industriais: Robert Reich diz que, juntas, as cinco maiores petroleiras americanas recebem US$ 4 bilhões ao ano de isenções do governo, tendo elas uma receita líquida de 50 bilhões de dólares.

PRÉ-SAL
Como em benesses para os poderosos, o Brasil não pode ficar atrás dos Estados Unidos, medida provisória do governo temer vai dispensar R$ 1 trilhão em impostos das petroleiras do pré-sal, em 25 anos; R$ 40 bilhões por ano. Ou seja uma regulação tirando dinheiro da saúde e da educação para entregá-lo a quem está “no topo”.

CRÉDITO
“Salvando o capitalismo”, documentário produzido pela Netflix. Apresentado por Robert Reich. Direção Jacob Kornbluth.

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