Plínio Bortolotti

A desigualdade que desafia o Brasil

Reprodução da coluna “Menu Político”, caderno “People”, edição de 17/12/2017 do O POVO.

A desigualdade que desafia o Brasil

Relatório da Oxfam Brasil, com o título “A distância que nos une – Um retrato das desigualdades brasileiras”, faz uma profunda análise dessa chaga social. O estudo não traz nenhuma informação nova para quem conhece minimamente o País, pois os pesquisadores valeram-se de documentos oficiais já conhecidos. Mas é chocante ver os dados reunidos e com análises mostrando os fatores que fomentam essa desigualdade.

Se não lhes faltasse decoro, a situação deveria envergonhar os políticos e uma elite insensível, que agridem o Bolsa Família, atacam as cotas e estufam o peito para falar de “meritocracia”, sem perceber (na verdade percebem) que o ponto de partida dos pobres está a algumas léguas de distância de um filho da classe média ou dos herdeiros dos super-ricos. É uma corrida desigual, do mesmo modo se, em uma prova de 100 metros rasos, Usain Bolt disputasse com um bando desses “meritocratas” para ver quem chegaria em primeiro lugar.

Neste país cordial, com 207 milhões de habitantes, apenas seis pessoas acumulam riqueza equivalente ao patrimônio dos 100 milhões de brasileiros mais pobres. Os 5% mais ricos ficam com a mesma fatia de renda que os demais 95%. Segundo os cálculos da Oxfam, um trabalhador de salário mínimo levaria 19 anos para receber o equivalente aos rendimentos de um super-rico em um único mês.

Mas o problema não se restringe ao Brasil, a desigualdade se alastra por vários países. No mundo, 700 milhões de pessoas vivem com menos de US$ 1,90 por dia (aproximadamente R$ 6,00). Ao mesmo tempo, oito pessoas têm o mesmo patrimônio que mais da metade da população pobre do mundo.

A situação é grave de tal maneira que o combate à desigualdade deixou de ser apenas “coisa de comunista”. Aumenta cada vez mais o número de bilionários preocupados com esse cenário dramático. Talvez não ajam por benemerência, mas por perceberem que esse tipo de “desenvolvimento” é insustentável: um modelo no qual a riqueza produzida pela sociedade vai apenas para o topo da pirâmide pode ser uma bomba-relógio.

Nos Estados Unidos, por exemplo, mais de 400 super-ricos escreveram cartas ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, manifestando-se contra a redução de impostos que os beneficiaria. Outros tantos, principalmente os bilionários das novas empresas de tecnologia, estão defendendo a renda mínima universal, assunto que já tratei nesta coluna.

Na semana passada, resenhei o documentário “Salvando o capitalismo”, baseado em um livro de mesmo título, autoria de Robert Reich, ex-secretário do Trabalho no governo de Bill Clinton. No livro e no filme, ele defende que somente será possível salvar o capitalismo se o sistema passar a distribuir melhor a riqueza produzida.

A questão é saber se no atual estágio do capitalismo ainda será possível corrigir a rota ou se a concentração da renda faz parte da lógica do sistema; logo, não poderia ser mudada “por dentro”. Se assim for, dois cenários são possíveis: 1) teremos uma sociedade absolutamente excludente, como no filme “Elysiun”, com os multimilionários vivendo em uma estação espacial, com a Terra reduzida a um enorme lixão, habitada por seres humanos descartáveis; 2) o aumento brutal da desigualdade levará a uma revolta popular de proporções tsunâmicas, cujo desfecho é difícil prever.

Talvez seja a consciência do risco embutido nessas duas possibilidades o motivo que levou alguns desses super-ricos a se lançarem à tarefa de tentar domar o monstro.

NOTAS

O QUE FUNCIONA
O relatório da Oxfam cita algumas políticas que funcionam para reduzir as desigualdades: 1) cobrança de impostos de forma progressiva e não regressiva, como é hoje: os pobres pagam mais; 2) ampliação de serviços públicos; 3) expansão de programas de complementação de renda; 4) melhoria na qualidade e no acesso à educação formal; 5) valorização do salário mínimo.

O QUE TRAVA
E alguns empecilhos que travam o caminho para uma sociedade mais justa: 1) corrupção; 2) influência excessiva do dinheiro na política, criando grupos de influência que bloqueiam políticas públicas de interesse da população mais pobre; 3) distanciamento entre a “classe política” e a sociedade.

CRÉDITO
A Oxfam é uma organização humanitária britânica, com representação em vários países do mundo, cuja missão é combater a pobreza e a desigualdade. O relatório completo (em português) pode ser visto aqui.

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