Plínio Bortolotti

Rio: onde estão os bandidos?

Reprodução do artigo publicado na editoria de Opinião do O POVO, edição de 2º/3/2018.

Rio: onde estão os bandidos?

Na semana passada escrevi neste espaço que o principal problema do Rio de Janeiro era “a organização criminosa que tomou o estado de assalto”; e não as favelas, cujos moradores foram postos sob uma espécie de estado de sítio.

Vai nesse mesmo sentido a entrevista concedida à BBC Brasil pelo ex-chefe da Polícia Civil do Rio, Hélio Luz, que pergunta: “Por que cercar a favela, se o crime não está ali? O cerne da questão da insegurança não está ali. Aquilo ali é o resultado”.

Para ele, a intervenção no Rio pode trazer benefícios, mas alerta: se a atividade do general Braga Netto resumir-se ao “envio de capitão do mato à senzala do século 21 (as favelas)”, a medida fracassará. Hoje aposentado, Hélio Luz chefiou a Polícia Civil de 1995 a 1997, no governo de Marcelo Allencar (PSDB).

Hélio Luz vê pelo menos duas frentes nas quais o interventor teria de agir. Ele diz que o Comando Militar do Leste (do qual Braga Netto é comandante) tem arquivo completo de informações sobre os integrantes das polícias Civil, Militar e dos bombeiros. “A segunda seção das Forças Armadas sabe de tudo”.

Agora, além de dispor das informações, o general também poderá agir com base nelas para sanear as polícias. Segundo Luz, a corrupção é prática corriqueira e estabelecida. “Sem pagar à polícia, não se pratica crime no Rio”.

A outra frente do general, afirma o ex-chefe da Polícia Civil, seria mudar o foco das favelas para as “mesas de câmbio que operam na avenida Rio Branco”, centro do Rio. “O bandido brasileiro usa terno e gravata”. Mas ele considera difícil acabar com a “turma do guardanapo na cabeça”, referência à gangue, cujo chefe, o ex-governador do Rio, Sérgio Cabral, está preso.

A análise de Luz também aborda a situação por outro aspecto, atribuindo as mazelas à desigualdade social. “Esses meninos no tráfico são produto direto nosso, da classe média, dos detentores do poder”.

E arremata: “É preciso estabelecer relação entre o auxílio-moradia (pago a juízes) e a parte considerável da população que não tem moradia. Essa relação causa-efeito existe nesta e em inúmeras questões”.

PS. Entrevista completa na BBC Brasil, clique aqui.

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