Plínio Bortolotti

Quem são os “padres casados”

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Inexiste levantamento preciso sobre o tema, mas estima-se que sejam em torno de oito mil no Brasil e cerca de 100 mil em todo o mundo. São sacerdotes que resolveram desafiar abertamente uma das mais persistentes tradições da Igreja Católica Romana: o celibato. Eles se casaram.

A partir desse ato de amor, os padres casados – mulher e família juntos – passaram a habitar uma espécie de limbo, em permanente crise de identidade. Pois, apesar de continuarem sendo padres quando se casam, pois “a sagrada ordenação, uma vez recebida, nunca se anula”, o sacerdote fica proibido de “exercer o ministério, em quase todos os casos”, pelo motivo de “amar uma mulher, com quem tenciona partilhar a vida em todos os aspectos possíveis e formar uma família”.

Essas informações, os trechos entre aspas são literais, estão no livro “Quebrando o silêncio – Um relato vivencial”, no qual o padre Geraldo Frencken e sua mulher Claudete da Silva Morais Frencken, contam a história de como se conheceram, apaixonaram-se, tomando a decisão de tornarem-se marido e mulher. Ela teve de explicar-se à família; ele de justificar-se aos superiores.

O livro começa com um relato da vida de cada um. Frenken, um holandês que chegou ao Brasil em 1973, serviu à Igreja no Pará e Rio de Janeiro, antes de fixar-se em Fortaleza. Claudete, cearense, mestra em Educação Brasileira, é oriunda de uma família operária, católica praticante. Conheceram-se no trabalho pastoral; ela voluntária na educação de jovens e adultos pelo método Paulo Freire; ele pároco da Igreja de São Paulo e São Pedro, em Fortaleza. Casaram-se em 1999.

Nas páginas do livro eles escrevem que, caso um padre queira unir-se a uma mulher e ela a ele, “as única alternativas são o abandono do sacerdócio ou a condenação perpétua a uma relação secreta. Claudete de Frencken quiserem fazer tudo às claras, mesmo sofrendo com a incompreensão. Afirmam que união deles “não é pecado; não é loucura”. Frencken diz que o afastamento compulsório da função sacerdotal, “deixa uma cicatriz pela vida toda”, pois muitos gostariam de continuar a exercer as atividades que lhes são proibidas pela Igreja.

O livro mostra que o celibato não é uma doutrina ou dogma da Igreja, porém uma tradição, uma “regra disciplinar”, que pode ser mudada. Os autores ensinam que o casamento não era proibido aos sacerdotes nos primeiros 10 séculos do cristianismo. E que não existe palavras no Evangelho mostrando que o casamento seja “empecilho para seguir plenamente Jesus”. Nas igrejas ortodoxas Orientais e católicos Orientais, o celibato é uma escolha, não uma obrigação.

No entanto, Frencken considera “reducionismo” discutir a questão do “padre casado” a partir apenas do celibato, pois existem “enigmas” que vão muito além desse problema.

Claudete e Francken fazem referências afetuosas a Dom Aloísio Lorscheider (1924/2007), arcebispo de Fortaleza entre 1973 e 1995, pela compreensão e acolhimento que ele dedicou aos padres casados.

Desde 1970, existe um movimento no Brasil que reúne os padres unidos em matrimônio, o Movimento Nacional das Famílias dos Padres Casados.

  • O livro será lançado nesta sexta-feira (15/6/2018), às 19 horas, no Centro Pastoral Maria, Mãe da Igreja. Rua Rodrigues Júnior, 300 – Centro.

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