Plínio Bortolotti

A sagrada família

Reprodução do artigo publicado na editoria de Opinião, edição de 1º/11/2018 do O POVO.

A sagrada família

“Falava Jesus à multidão quando sua mãe e seus irmãos chegaram do lado de fora, querendo falar com ele. Alguém lhe disse: ‘Tua mãe e teus irmãos estão lá fora e querem falar contigo’. ‘Quem é minha mãe, e quem são meus irmãos?’, perguntou ele. E, estendendo a mão para os discípulos, disse: ‘Aqui estão minha mãe e meus irmãos! Pois quem faz a vontade de meu Pai que está nos céus, este é meu irmão, minha irmã e minha mãe.’” (Mateus 12:46-50).

Por que Jesus dirige palavras duras para a sua mãe e irmãos? Há outras passagens mostrando aparente desapreço à família sanguínea, por exemplo: “Se alguém vem a mim, e não aborrece a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs e ainda a sua própria vida, não pode ser meu discípulo.” (Lucas 14:26).

Em pesquisa no Google (o deus da modernidade) encontrei explicações piedosas, tentando justificar essas palavras com coisas do tipo “não é bem assim…”. Portanto, mesmo sendo apenas um leitor e não um estudioso da Bíblia, vou arriscar uma interpretação.

Jesus vivia em uma região imersa em conflitos: a Palestina ocupada por Roma, que os judeus queriam expulsar de suas terras sagradas. O Nazareno era líder de um pequeno grupo de resistência político-religioso, que atraía multidões por onde passava. Portanto, um homem perigoso. A mãe, como toda mãe, certamente queria preservar a vida do filho e evitar conflitos em família, devido às suas atividades subversivas.

Quanto aos irmãos, é bem possível que discordassem das ideias de Jesus, argumentando, quem sabe, que havia exagero da parte dele, e que Pilatos não chegaria ao ponto de prendê-lo ou condená-lo. Por sua vez, Jesus talvez se irritasse com a complacência deles frente aos romanos, e com a incompreensão política que revelavam, o que devia provocar fortes discussões em família. Por fim, cansado da cegueira dos irmãos, não vendo o risco que o povo hebreu corria, ele deve ter resolvido romper com eles.

Assim, quando Jesus repele mãe e irmãos, pretende ensinar que a verdadeira família é aquela que o acolhe, protege e o ama, da forma como você é, com disposição para ficar ao seu lado nos momentos de perigo ou de dificuldade.

(Qualquer semelhança com os tempos atuais é mera casualidade.)

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