Plínio Bortolotti

Teremos um Bolsonaro X Mourão?

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Desde a campanha eleitoral o general Hamilton Mourão deixou explícito que não será um “vice decorativo”, em suas próprias palavras. O que ainda está por ver é se a sua atividade entrará em confronto aberto com as proposições do presidente eleito, Jair Bolsonaro. Este, por sua vez, mesmo sendo contrariado frontalmente – ainda que com palavras cuidadosas – por Mourão evita bater de frente com o general, como costuma fazer com outros aliados. Em entrevista recente ao jornal Folha de S. Paulo, Mourão mostrou que não vai reprimir críticas às propostas anunciadas por Jair Bolsonaro das quais discorde.

O jornalista Janio de Freitas fez uma análise do que disse Mourão na citada entrevista, levantando a hipótese de que ele fala por um setor mais amplo das Forças Armadas e que seu papel seria “fazer um poderoso contrapeso à voracidade dos demais” que cercam Bolsonaro. Janio diz ter “informação com boa origem, mas ainda sob ressalva”, indicando que Bolsonaro teria sido “aconselhado” na área militar, quando já tinha seu escolhido, “a ceder a vice a Mourão”. Segundo escreve Janio, “a desafinação com as ideias de Bolsonaro, sobretudo nas relações internacionais, e com a sua conduta desatinada, bem conhecida no Exército que o dispensou”, estavam entre os primeiros motivos para a iniciativa do “conselho”.

Na entrevista, contrariando propostas de Bolsonaro, Mourão disse que “às vezes o presidente tem uma retórica que não combina com a realidade”. Contestando o titular, o vice afirma ter “certeza absoluta” que a nova gestão não vai “brigar” com a China. Quanto à mudança da embaixada do Brasil em Israel, da cidade de Tel-Aviv para Jerusalém, pretendida por Bolsonaro, o general afirma que a decisão não pode ser tomada “de orelhada”. Sobre o Mercosul, “antes de pensar em extinguir”, seria preciso “fazer os esforços necessários para que atinja os seus objetivos”. São questões – pelo menos nas palavras – centrais na política de Bolsonaro, confrontadas pelo seu vice.

O mal-estar de um setor Exército com Bolsonaro pode ter origem nestes fatos:

Em 1986, ele chegou a ser detido por 15 dias, depois de ter escrito um artigo para a revista Veja, “sem conhecimento e autorização de seus superiores”, reclamando dos baixos salários pagos aos militares. Em 1987, a Veja publica reportagem revelando uma suposta operação que Bolsonaro estaria preparando para “colocar bombas de pequeno alcance para pressionar o comando do Exército”. Após a reportagem da Veja, iniciou-se um processo contra Bolsonaro. No dia 30/11/1987, ele foi expulso do quadro da Escola de Oficiais do Exército, mas continuou na instituição como “adido”. Em 16/6/1988 o Supremo Tribunal Militar o absolveu. Ou seja, são dois fatos distintos: a prisão (devido ao artigo) e o suposto “atentado”, do qual ele foi absolvido.

No entanto estão registradas críticas de oficiais importantes do ciclo militar sobre a sua atuação. A mais conhecida é do general Ernesto Geisel (ditador entre 1974 e 1979), que o chamou Bolsonaro de “mau militar” e “um caso completamente fora do normal”, ao falar da atuação dos militares na política. Geisel respondia a uma entrevista de Maria Celina d’Araújo e Celso Castro, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), que depois foi transformada no livro “Ernesto Geisel” (1997).

Outro militar de alta patente que não o suportava era o coronel Jarbas Passarinho, ministro várias vezes no período militar, incluindo da Educação e da Justiça. Em entrevista ao Terra Magazine (31/3/2011), Passarinho afirmou: “Bolsonaro irrita muito os militares”. Referindo-se ao processo sofrido por Bolsonaro, Passarinho disse que ele “só se salvou de não perder o posto de capitão porque foi salvo por um general que era amigo dele no Superior Tribunal Militar (STM). O ministro (do Exército), que era o Leônidas (Pires Gonçalves), rompeu com esse general por causa disso”. Perguntando (lembrar que a entrevista é de 2011) se as ideias de Bolsonaro eram representativas para a maior parcela das Forças Armadas, Passarinho responde que não: “Alguns sujeitos (apoiam), mas é raro”.

Pode-se observar que o presidente eleito era mal-visto por um setor expressivo do Exército, fato relativamente conhecido. Mas, quando sua popularidade começou a crescer, mostrando potencial de chegar à Presidência da República, seus críticos militares tiveram de se render a ele. Portanto, a hipótese que Janio de Freitas levanta é bastante verossímil. Assim, pode-se presumir, com um bom grau de acerto, que Bolsonaro é tolerado, porém não tem a confiança dos oficiais superiores e dos generais do Exército.

Por esse raciocínio, Mourão, seria o contraponto quando Bolsonaro quisesse transformar em política de fato a sua “retórica que não combina com a realidade”, no dizer de seu vice. Resta saber se Mourão, que também deu mostras de indisciplina quando estava na ativa, tem o perfil adequado para o papel de agente moderador.

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