Plínio Bortolotti

Os Bolsonaros e as milícias

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O vice-presidente da República, general Hamilton Mourão, pretende nos fazer crer que o rolo no qual está metido Flávio Bolsonaro é mera “preocupação de pai para filho”, que não afeta o governo. Seria apenas preocupação familiar se Flávio não fosse deputado estadual e senador eleito pelo Rio de Janeiro e o pai não fosse presidente da República. Em assim sendo, o caso interessa a todos os brasileiros, que esperam esclarecimentos sobre pontos obscuros na trajetória da família Bolsonaro.

Além disso está bastante claro que a situação prejudica a atuação do governo. Basta ver o que aconteceu em Davos (Suíça). Para evitar perguntas sobre o assunto, o presidente está se esquivou-se da imprensa e desmarcou uma entrevista coletiva que faria com jornalistas brasileiros e de outros países, algo inédito no Fórum. O mesmo aconteceu com entrevistas que seriam concedidas pelos ministros Paulo Guedes (Economia) e Sérgio Moro (Justiça).

A verdade é que esse problema continuará a perseguir o governo, com consequências para todo o país. E a situação fica cada vez mais complicada para os Bolsonaros, conforme se pode ver por esta retrospectiva.

1. Tudo começou quando o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) identificou movimentações financeiras “atípicas” na conta de Fabrício Queiroz, ex-motorista/assessor de Flávio Bolsonaro, com valores incompatíveis com seu salário. Como havia depósitos de outros assessores na conta de Queiroz, a suspeita é que se trate da chamada “rachadinha”, na qual o parlamentar fica com parte de salários de seus funcionários. Descobriu-se também um cheque de R$ 24 mil depositado por Queiroz na conta da primeira dama, Michele Bolsonaro. Segundo o presidente Jair Bolsonaro, teria sido parte do pagamento de um empréstimo que ele teria feito a Queiroz.

2. O próprio Flávio caiu na rede do Coaf devido a depósitos fracionados de R$ 2.000 em sua conta, no total de R$ 96 mil. Caso típico de lavagem de dinheiro, segundo especialistas em crimes financeiros. Além disso, existem outros negócios de Flávio, carentes de explicação, na área imobiliária.

3. A situação fica pior quando a investigação do assassinato da vereadora Marielle Franco e de seu motorista Anderson Gomes aproxima-se de pessoas do círculo de Flávio Bolsonaro. A Operação Intocáveis, do Ministério Público do Rio e da Polícia Civil, aponta o chamado “Escritório do Crime” – uma organização de milicianos especializada em assassinatos, extorsão e grilagem de terras – como responsável pela morte de Marielle e de seu motorista. O ex-capitão do Bope, Adriano Magalhães da Nóbrega, é apontado como um dos líderes do do Escritório do Crime, do qual também participaria o major da PM Ronald Paulo Alves Pereira.

4. E aqui o caso encontra-se com o gabinete de Flávio Bolsonaro. Raimunda Veras Magalhães (mãe de Adriano) e Danielle Mendonça da Costa da Nóbrega (mulher dele) eram funcionárias de seu mandato até novembro do ano passado. Além disso, Adriano (foragido) e Ronald foram homenageados, no início dos anos 2000, na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) por indicação de Flávio. Adriano recebeu a medalha Tiradentes, a mais alta condecoração da Alerj. No entanto, quando a vereadora Marielle Franco recebeu postumamente a mesma honraria, Flávio foi o único deputado da Alerj a votar contra a concessão.

5. O senador eleito e o próprio presidente, Jair Bolsonaro, tem histórico de defesa da atuação das milícias. Em 2003, quando um grupo de assassinos atrerrorizava a Bahia, Bolsonaro, então deputado federal, fez o seguinte discurso na Câmara: “Enquanto o Estado não tiver coragem de adotar a pena de morte, o crime de extermínio, no meu entender, será muito bem-vindo. Se não houver espaço para ele na Bahia, pode ir para o Rio de Janeiro. Se depender de mim, terão todo o meu apoio”. Em 2008, Bolsonaro voltou a falar sobre o assunto, elogiando a atuação de milícias no Rio. Flávio também já defendeu a legalização desses grupos criminosos.

A rede notícias Deutsche Welle (DW Brasil), em reportagem publicada em seu portal, lembra que durante a campanha de Flávio ao Senado, surgiram outras ligações dele com milicianos. Em agosto, a Operação Quarto Elemento prendeu dezenas de policiais suspeitos de crimes. Entre eles estavam os irmãos Alan e Alex Rodrigues de Oliveira, dois PMs que atuaram como seguranças na campanha de Flávio. Ambos são irmãos de Valdenice de Oliveira Meliga, assessora de Flávio na liderança do PSL na Alerj e tesoureira do partido no Rio.

No mesmo texto, a DW informa que Jair Bolsonaro já defendeu publicamente a atuação das milícias. Em 2008, quando era deputado federal, disse que os grupos ofereciam oferecem segurança, mantendo a ordem e a disciplina nas comunidades, defendendo a sua legalização.

6. Com todos esses indícios apontando para crimes graves praticados por policiais, é preciso perguntar aos Bolsonaros e seguidores, se eles ainda sustentam a tese que “bandido bom é bandido” morto ou isso só vale para criminosos sem farda.
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Veja também: Qual a relação dos Bolsonaros com as milícias? (neste blog)
DW Brasil: A sombra das milícias sobre o governo Bolsonaro.
Janio de Freitas (Folha de S. Paulo): Por ora, o começo.

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