Plínio Bortolotti

Jornalismo simplifica ao insistir em “renovação” para explicar assunto complexo

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No sábado passado, durante a votação que elegeria Davi Alcolumbre (DEM-AP) presidente do Senado, registrei em um post do Twitter meu espanto com alguns jornalistas que trabalham em Brasília por não enxergarem de perto “o que é visível à distância”. Estou falando da suposta “renovação” que teria acontecido no Congresso, devido à onda que levou Jair Bolsonaro (PSL-RJ) à chefia do Executivo brasileiro.

Nem pretendo entrar no mérito da conceituação da palavra “renovação”, que poderia levar ao campo da subjetividade. Porém, objetivamente, no Senado não houve ascensão de políticos “novos”, mas de gente tarimbada na política, afeita às práticas de sempre. A ver.

O QUE FOI MESMO QUE SE RENOVOU?
Das 81 cadeiras do Senado 54 (1/3) estavam em disputa, sendo que apenas oito senadores foram reeleitos, com 46 vagas ocupadas por novos senadores. Portanto, uma suposta “renovação” de 85%. Mas olhemos mais de perto: quatro deles já haviam sido senadores em outras ocasiões; outros 22 eram deputados federais na legislatura anterior. Por essas contas, apenas 20 seriam “novos” no Legislativo Federal. Mas, vejamos com lupa: outros 13 eleitos já ocuparam cargos públicos, como governador, prefeito ou deputados estadual. Assim os novos mesmos, que nunca havia ocupado cargo eletivo, reduzem-se a cinco nomes. Se a mirada for com microscópio, descobrir-se-á ainda, entre o quinteto quem já tenha ocupado cargo na máquina pública.

CARAS NOVAS SÃO VELHAS
Quanto à Câmara dos Deputados, dos 513 deputados, 262 vão assumir sem ter ocupado cadeira na legislatura anterior, uma taxa de “renovação” de 51%, a maior entre 1998 e 2014, quando a taxa de de calouros ficava abaixo de 50%. Porém, desses “novos”, 19 já foram deputados federais em ocasiões anteriores. Não consegui levantamento para verificar a quantidade de “novos” que já haviam ocupado cargos eletivos em seus respectivos estados, o que reduziria a “renovação”, se ela for entendida como a ascensão de novatos nas lides político-partidárias: muito provavelmente, seria muito parecido com o que ocorreu no Senado.

O fato de o eleitorado ter entendido como “renovação” o fato de ter votado em supostas “caras novas” para o Congresso, não quer dizer que isso de fato tenha acontecido. Ou seja, muitos eleitos como “novidade” carregam os vícios da velha política, e deviam lidar muito bem com ela, assim como os invisíveis do baixo clero, apresentados como novidade; o mais destacado deles, o próprio Jair Bolsonaro.

E, no sábado, Davi Alcolumbre, outro representante do baixo clero, tornou-se presidente do Senado, vendido como “renovação”. Sem falar no presidente da Câmara, o reeleito Rodrigo Maia. Aliás, ambos são do DEM, um partido que tem origem na Arena, a sigla de sustentação da ditadura militar, portanto nada mais velho do que isso. Na verdade, o enfraquecimento dos partidos tradicionais não representa a ascensão de uma “nova política”. Assemelha-se mais a uma revolta dos ressentidos, que pouco vai mudar no Legislativo, a não ser pelo aumento da fragmentação partidária e pela truculência e ignorância de alguns elementos da extrema-direita, o que pode dificultar os planos do governo.

ALCOLUMBRE RESPONDE A PROCESSOS NO STF E QUER CALAR A IMPRENSA
Agora vamos às credenciais do novo presidente do Senado, Davi Alcolumbre, que está na política há mais de 20 anos, tendo iniciado a sua carreira como vereador de Macapá (AP), depois eleito deputado federal por três mandatos.

Ele assumiu a presidência do Senado prometendo pôr fim ao “segredismo” na Casa. Poderia começar dando o exemplo, pedindo para levantar o segredo de Justiça no processo 4353 que corre contra ele no Supremo Tribunal Federal (STF). Também no STF, responde por acusações de irregularidades na campanha eleitoral de 2014 (processo 4677), similar ao inquérito que corre em segredo de Justiça, em crimes contra a fé pública e uso de documentos falsos na prestação de contas.

Além disso, precisaria explicar porque move duas ações contra jornais de seu estado, uma delas pelo fato de o periódico ter divulgado as ações judiciais que tramitam no STF. Ou seja, quer censurar os jornais para manter o “segredismo” de seus possíveis malfeitos. Ainda, é um dos beneficiários das doações da JBS, da qual recebeu R$ 138 mil na campanha de 2014. Ao assumir, tornou-se presidente da CPI do BNDES, que visava apurar possíveis irregularidades na empresa frigorífica.

JORNALISMO PODE FAZER MELHOR
Reconheço a dificuldade em encontrar uma nomenclatura, uma palavra, para resumir os acontecimentos desta eleição que, de fato, provocou mudanças no quadro político brasileiro, inclusive com o baque que sofreram os partidos que monopolizaram a política nas últimas décadas. Porém, insistir em classificar esses eventos como “renovação”, simplificando em demasia uma situação complexa, não parece o melhor que pode fazer o jornalismo.
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UolRenovação do Senado é de 85%, mas apenas 30% são caras novas no Congresso.
Folha de S. PauloCom reeleição abaixo de 50%, Câmara terá renovação recorde.
Rádio CBNDavi Alcolumbre, eleito presidente do Senado, é alvo de dois inquéritos no Supremo Tribunal Federal.

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