Plínio Bortolotti

O “grande líder”

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Reprodução do artigo publicado na editoria de Opinião, O POVO, edição de 28/2/2019.

O “grande líder”

À primeira vista soou estranha a resposta do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, ao repórter Victor Ferreira, da Globonews. O jornalista perguntou-lhe por que o presidente americano, Donald Trump, mantém diálogo com Kim Jong-un, ditador da Coreia do Norte, mas recusa-se a negociar com o autocrata venezuelano, Nicolás Maduro. Na resposta, o ministro passou o pano para a ditadura norte-coreana: “Não sei se necessariamente é com esse grau de brutalidade que se viu neste final de semana (na Venezuela). São situações que não necessariamente se podem comparar”.

Em segunda análise, fica resolvida a charada. Trump, o ídolo de Araújo, vem se aproximando da Coreia do Norte. Kim deixou de ser o “rocket man”, passando à categoria de “grande líder”, como elogiou o presidente americano, na cúpula entre os dois países, realizada ontem, no Vietnã. Araújo, como bom sabujo, apenas segue o chefe da matilha.

Porém, o fato inescapável é que a Coreia do Norte é uma ditadura feroz, na qual os líderes são adorados como deuses; melhor, o povo é obrigado a tal comportamento, pois vive sob vigilância onipresente. O país é governado por uma dinastia comunista: o atual dirigente é neto do fundador da República Popular “Democrática” da Coreia. (Aspas por minha conta, pois merecidas.)

Quando uma turma do PSL (o partido de Bolsonaro) viajou para um piquenique na China, no sistema “all inclusive”, com tudo pago pelos chineses, foram criticados por seus próprios companheiros, por visitar um país “comunista”. Para defender-se o deputado federal Daniel Silveira postou vídeo dizendo que na China o socialismo era mais “light”, diferenciando-se de Cuba, Venezuela e Coreia do Norte (sic). Assim, para os bolsonaristas a classificação de um regime político depende de variáveis como obter vantagens pessoais ou submissão aos Estados Unidos.

Mas pode ser que Bolsonaro esteja estranhando sua turma, com esses acenos aos “vermelhos”. Talvez por isso, tenha resolvido dar um exemplo para o seu partido lançando-se a sôfregos elogios a um pedófilo, torturador e assassino, o ditador do Paraguai (1954-1989), Alfredo Stroessner, porém de extrema-direita.

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