Plínio Bortolotti

O sapo e o mercado

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Reprodução do artigo publicado na editoria de Opinião, edição de 28/3/2019 do O POVO.

O sapo e o mercado

Na ânsia de eleger Jair Bolsonaro, um dos argumentos para desculpar seus desvarios, cometidos durante os seus sete mandatos como deputado e na campanha eleitoral, era que a faixa presidencial conter-lhe-ia o ânimo caótico, irascível, autoritário e preconceituoso. Seus apoiadores faziam de conta acreditar que o peso da institucionalidade seria um toque mágico de transformação, mais ou menos como o conto de fadas “O príncipe sapo”. Porém, o caso estava mais para a fábula “O sapo e o escorpião”.

Por isso, setores que apoiaram Bolsonaro, entre os quais um senhor chamado “Mercado”, estão em polvorosa, pois já perceberam que o presidente não conseguirá entregar a mercadoria prometida. Sintomático, na terça-feira, ter havido dois eventos reunindo empresários. Um, em torno do vice Mourão; o outro com o presidente Bolsonaro.

O vice-presidente participou de um encontro na poderosa Fiesp (a federação do empresariado paulista), reunindo mais de 600 pesos-pesados da indústria e do setor financeiro, que aplaudiram Mourão de pé. Enquanto isso, o presidente recebia, em Brasília, um grupo de empresários capitaneado por dois devotos do bolsonarismo, prenunciando a sua solidão: Luciano Hang (dono da Havan) e Flávio Rocha (proprietário da Riachuelo), que lhe entregaram uma carta em defesa da reforma da Previdência, sonho de consumo do empresários, sejam eles fanáticos ou não do bolsonarismo.

Foi também na terça-feira que editoriais dos três maiores jornais do País malharam o presidente, sem piedade. O Estado de S. Paulo foi na jugular, com o título: “Procura-se um presidente”; O Globo: “Bolsonaro precisa afinal assumir o seu mandato”; a Folha de S. Paulo anotou ser “inquietante” observar “a indigência das ideias da trupe bolsonarista”, classificando como “assustadora” a incapacidade do capitão reformado em liderar a negociação em torno da reforma da Previdência.

Assim, o presidente, cada vez mais, resume-se a falar para um grupelho de fanáticos, que aposta no caos. Já Mourão, espécie de Bolsonaro com o verniz do media training, desponta como o novo queridinho dos representantes do mercado.

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