Plínio Bortolotti

Para o novo ministro da Educação, universidades do “agreste” não devem ensinar sociologia e nem filosofia

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Uma das cobranças que recebo de leitores e ouvintes é que não deveria “torcer”  contra o governo Bolsonaro, pois, dizem “estamos todos no mesmo barco”. Devido ao artigo que escrevi ontem (8/4/2019) neste blog, Ministério da Educação: problemas tendem a continuar, esse tipo de argumento voltou a ser agitado, como neste comentário deixado pelo leitor Francisco: “Crítica é livre e aberta, pois estamos numa democracia. Sua opinião foi emitida às 15:13 (horas) do mesmo dia da admissão do ministro e você já definiu a agenda, as metas dele e que o MEC será a mesma coisa. Espero que você esteja correto nas suas conjecturas. Vai parecer perseguição se o cara for lá e fizer o trabalho dele sem maiores percalços. Ah, deve ser porque diferente de você eu torço para que as coisas deem certo…”

Minha resposta padrão é a seguinte: não me cabe torcer ou destorcer para o governo, mas analisar os seus procedimentos. Portanto, pode-se concordar ou discordar do que eu digo e escrevo, mas exigir “torcida” é uma licença que não reconheço aos meus eventuais críticos, ainda que defenda o direito deles exercerem a cobrança. Além do mais, torcida se faz para time de futebol. E, se estamos todos “no mesmo barco”, alguns estão nos camarotes de primeira classe e a imensa maioria está remando nas galés.

Mas é claro que se pode analisar o que pode vir a acontecer a partir do histórico no novo titular do Ministério da Educação, Abraham Weintraub. Primeiro, ele é da mesma turma do ministro sainte, Vélez Rodrigues, alunos do guru do governo Bolsonaro, Olavo de Carvalho. Isso pode indicar que a questão “ideológica” terá mais preponderância do que os temas técnicos, pois os discípulos de Carvalho estão em uma cruzada contra o “comunismo mundial”. Para esses aloprados, como disse o próprio Weintraub, “os comunistas são o topo do país. Eles são o topo das organizações financeiras; eles são os donos dos jornais; eles são os donos das grandes empresas; eles são os donos dos monopólios. Os monopolistas apoiaram Lula; os monopolistas estavam dando dinheiro para o Haddad”.  Quem pode levar a sério um argumento desses, a não ser que se acredite em uma teoria da conspiração? Além, disso, se você trocar “monopolistas” por “judeus”, o discurso iguala-se com o dos nazistas nas décadas de 1930 e 1940.

E o que dizer de um ministro da Educação que demonstra preconceito contra o Nordeste? Depois de elogiar a visita que o presidente fez a Israel, ele saiu-se com esta: “Em vez de as universidades do Nordeste ficarem aí fazendo sociologia, fazendo filosofia no agreste, (deviam) fazer agronomia, em parceria com Israel”. Ou seja, para ele os nordestinos não podem fazer sociologia ou “filosofia no agreste”, direito reservado somente às elites do sul maravilha.

Tirando isso, parece bastante óbvio que os militares ficaram no mínimo incomodados pelo fato de a escolha do ministério não ter tido uma orientação “técnica” como eles queriam. Pelo que está indicado até agora, Bolsonaro vai continuar nessa linha, impondo a sua agenda ideológica.

Os militares, por sua vez, ao que tudo indica vão se manter em compasso de espera, com tem feito até agora, driblando as atitudes e declarações mais afoitas do presidente.A questão que se põe é a seguinte: até quando esse arranjo se sustentará?

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