Plínio Bortolotti

Netflix: “Estamos vencendo a luta contra o sono”

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Artigo recente publicado no site Monday Note aborda a dificuldade que os meios de comunicação de notícias têm hoje para conseguir assinaturas digitais, tendo de concorrer com uma infinidade de negócios eletrônicos, que se valem do mesmo sistema para conseguir clientes. Na disputa brutal pela atenção do leitor/ouvinte/espectador, os concorrente esbarram em um obstáculo insuperável: o tempo que cada indivíduo dispõe em um ciclo inelástico de 24 horas.

Chamou-me, portanto a atenção este trecho da reportagem:

– Ao contrário da alocação de dinheiro, o tempo não pode ser expandido. Exceto considerando competir com o sono, como o CEO (executivo principal) da Netflix, Reed Hastings, se orgulha: “Você começa a ver um programa ou um filme que você está realmente morrendo de vontade de assistir e acaba ficando acordado tarde da noite, então estamos competindo com o sono. E estamos vencendo!”

Ou seja, a Netflix (e similares) está roubando o seu (nosso) sono e ganhando dinheiro com isso.

Lembrei, então, de dois textos que escrevera sobre o assunto “sono” e também de um artigo do sociólogo Robert Kurz tratando do tema. O primeiro que publiquei foi Dormir é para os fracos, no qual manifestei surpresa depois de ler reportagem na revista piauí, O sono acabou, comentando estudo do Departamento de Defesa americano, que pesquisava como deixar uma pessoa vários dias desperta, de maneira produtiva e eficiente. O estudo tem o objetivo de criar um soldado “sem sono”, apto a participar de missões que exijam grande esforço e vigília permanentes. Inicialmente, esse período seria de sete dias; no longo prazo a finalidade é duplicar o período, preservando altos níveis de desempenho mental e físico.

No artigo, assinado por Jonathan Crary, professor na Universidade Columbia (EUA), ele diz que as inovações militares são rapidamente absorvidas pela vida civil, e que o “soldado sem sono” seria o precursor do trabalhador ou do consumidor em permanente vigília. “Produtos contra o sono, após agressiva campanha de marketing das empresas farmacêuticas, iriam se tornar uma opção de estilo de vida e depois, para muitos, uma necessidade.”

Crary atribui ao mercado a ânsia por suprimir o sono, pois esse período improdutivo subsiste “como uma das grandes afrontas humanas à voracidade do capitalismo contemporâneo”. Para ele, o sono é a das últimas necessidades “aparentemente irredutíveis da vida humana”, que ainda não se transformaram em mercadoria ou investimento, como já acontece com a “fome, a sede, e o desejo sexual”.

Voltei ao assunto em O capitalismo contra o sono, depois de um leitor que lera o artigo, me indicar o texto Escravos da luz sem misericórdia, de Robert Kurz , publicado em 1997.

Para Kurz, à medida que a concorrência se faz total, “o sono passa a ser um inimigo tão sórdido quanto a noite”, pois “o infatigável ativismo da produção capitalista é ‘desmedido’. Contudo esta falta de medida não pode tolerar em princípio nenhum tempo que permaneça ‘escuro’. Pois o tempo da escuridão é também o tempo do descanso, da passividade, da contemplação. O capitalismo requer, ao contrário, a ampliação de sua atividade às raias do esforço físico e biológico”.

A esfera pública do mercado, diz Kurz,  não é propriamente o âmbito da livre comunicação, “mas uma esfera da observação e do controle”. E se esse controle, nas ditaduras totalitárias, era exercido externamente pelo aparato burocrático do Estado e da polícia, na democracia tornou-se “autocontrole introjetado, suplementado pela mídia comercial, na qual os holofotes dos campos de concentração transmudaram-se nas luminárias de uma gigantesca feira a varejo. Aqui não se discute livremente, mas se irradia luz sem misericórdia”.

Por isso é tão reveladora a frase do diretor da Netflix, Reed Hastings, pois trata-se do executivo de uma importante empresa revelando o que talvez a economia de mercado quisesse manter em segredo. Um segredo de polichinelo é certo, porém, como tantos outros, escondidos atrás de uma fina cortina, mas, mas que não ousamos transpassá-la pelo olhar. Ou, talvez, tão iluminado que nos cega.

PS. O artigo de Robert Kurz é bem mais complexo do que o resumo que fiz dele. Diz, por exemplo que, até hoje, 200 anos depois, “continuamos ofuscados pelo clarão do iluminismo burguês”, traçado  uma espécie de histórico da “claridade”, com crítica, inclusive a Karl Marx. O link está acima.

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