Plínio Bortolotti

Deltan Dallagnol, o pior dos fariseus

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Então, Jesus disse à multidão e aos seus discípulos: “Os mestres da lei e os fariseus se assentam na cadeira de Moisés. Obedeçam-lhes e façam tudo o que eles lhes dizem. Mas não façam o que eles fazem, pois não praticam o que pregam. Eles atam fardos pesados e os colocam sobre os ombros dos homens, mas eles mesmos não estão dispostos a levantar um só dedo para movê-los.” (Mateus 23:1-4)

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Suponho que o leitor que ora lê esta postagem já tenha conhecimento do novo lote de mensagens divulgadas hoje (14/7/2019) pela plataforma Intercept Brasil e pelo jornal Folha de S. Paulo. Há cerca de um mês o Intercept começou a mostrar a relação promíscua entre procuradores da operação Lava Jato e o ex-juiz Sérgio Moro, atual ministro da Justiça do governo de Jair Bolsonaro. As reportagens começaram quando o Intercept teve acesso a conversas mantidas pelos integrante da operação Lava Jato por meio do aplicativo Telegram.

De qualquer modo, aqui vai um pequeno resumo da parte 10 da Vaza Jato:

“O procurador da República Deltan Dallagnol, coordenador da força-tarefa da Lava Jato, montou um plano de negócios para lucrar com eventos e palestras na esteira da fama e dos contatos conseguidos durante a operação, mostram mensagens obtidas pelo Intercept e analisadas em conjunto com a equipe da Folha de S.Paulo. Em um chat sobre o tema criado no fim de 2018, Dallagnol e um colega da Lava Jato discutiram a constituição de uma empresa na qual eles não apareceriam formalmente como sócios, para evitar questionamentos legais e críticas. A ideia era usar familiares.”

Em um português mais popular, Deltan procurava fórmulas para driblar a lei para ganhar dinheiro às custas da Lava Jato. Veja aqui.

Se até agora procuradores e Moro vinham alegando que não podiam confirmar conversas ocorridas há sete ou oito anos, pois não se lembravam delas, será difícil Dallagnol negar este fato. Os diálogos são de fevereiro deste ano, no qual Dallagnol combina com o procurador Roberson Pozzobon a forma dividir os lucros de palestras sem despertar suspeitas, utilizando suas esposas como “laranjas”.

O registro compromete inapelavelmente a fama de implacáveis defensores da lei dos procuradores de Curitiba, pois combinam procedimentos para ludibriá-la.

Porém, a meu ver, ninguém acorda uma bela (ou horrível) manhã e diz para si mesmo: “A partir de hoje serei um corrupto”. A coisa avança devagar, com o mandatário ou funcionário público passando a achar “normal” questões que ferem a ética, a moral e a lei, que vão em um crescendo de facilidades e privilégios, chegando, por fim à corrupção aberta, por dinheiro ou por “convicções”. Agora se vê que integrantes da da Lava Jato seguiram esse roteiro.

A força-tarefa da operação, Moro incluído, forjou para seus integrantes o papel de um grupo de homens acima de qualquer suspeita, sem defeitos e implacáveis no combate a ilegalidades. Incentivaram aqueles que os tratavam como super-heróis, tornaram-se popstars, conquistaram uma legião de “fãs” e puseram-se acima de lei, em nome do combate à corrupção, com a promessa de nos livrar de todo o mal.

Dallagnol, inclusive, acrescentou mais uma camada à sua persona pública: a de um religioso, um evangélico, que falava em nome do Senhor, um pregador, que doava a paga de suas palestras para entidades de combate a corrupção: mentia. Revelou-se o pior dos fariseus.

No entanto, todo moralista, todos aqueles que se consideram acima dos mortais comuns, têm um retrato guardado no porão, e os sinais vão ficando pelo caminho, basta observar. Vejam alguns episódios da vida de Dallagnol: mesmo que não sendo ilegais, no mínimo, estão no campo da imoralidade e da falta de ética.

1. Em 18/11/2017 o jornalista Joaquim de Carvalho revelou que Deltan havia comprado dois apartamentos do Minha Casa Minha Vida, em Ponta Grossa (PR). A compra foi no ano de 2013, um imóvel pelo valor de R$ 76 mil e outro por R$ 80 mil. Por óbvio, o procurador não moraria em um apartamento tão modesto, de 55 m2. Comprou-os como investimento. Segundo uma corretora consultada pelo jornalista muitas das unidades ficaram ficaram nas mãos de “investidores”, que passaram a vender os imóveis pelo preço de R$ 135 mil, com lucro, portanto, em torno de 70% no preço inicial do apartamento.

O que aconteceu aqui? Deltan não cometeu nenhuma ilegalidade, mas tirou a oportunidade de uma pessoa de renda baixa comprar o imóvel, lucrando em cima das costas de pessoas pobres. Veja o texto completo.

2. No dia 24/7/2017, o jornalista Reinaldo Azevedo escreveu o artigo “Dallagnol virou procurador contra o que diz a lei”, no qual explica como Deltan fez o concurso para procurador, que exigia candidatos “bacharéis em Direito há pelo menos dois anos, de comprovada idoneidade moral”, sem cumprir os requisitos, e como o pai dele, procurador estadual aposentado, atuou como seu advogado. Deltan passou no concurso, ganhou uma liminar na Justiça do Paraná, e assumiu o cargo. A Advocacia Geral da União recorreu, mas o Tribunal Regional Federal da Quarta Região o manteve no cargo, alegando a teoria do “fato consumado”.

O que aconteceu aqui? Espertamente, Deltan, com ajudinha da Justiça, passou a perna nos candidatos que respeitaram o regulamento do concurso. Veja texto completo.

3. No início de 2018 foi divulgado que Dallagnol recebia R$ 4,37 mil de auxílio moradia, mesmo tendo residência em Curitiba. No total, os auxílios no contracheque do procurador somavam R$ 6,65 mil de verbas indenizatórias por mês.  (O auxílio moradia ainda era pago ao ex-juiz Sergio Moro, também com imóvel próprio e ao juiz Marcelo Bretas, da Lava Jato no Rio de Janeiro, que movia uma ação para acumular o seu auxílio com o da esposa, juíza como ele, mesmo havendo resolução do CNJ proibindo pagamento em dobro.)

O que aconteceu aqui? Tudo dentro da lei, mas era moral aceitar o auxílio moradia, tendo ele um ótimo teto sobre a sua cabeça?

Mas o grande negócio mesmo de Deltan e sua turma seria criar uma instituição “sem fins lucrativos”, na qual ele pretendia levantar mais R$ 400 mil ano ano, para somar ao seu já gordo salário, que lhe rende R$ 300 mil, líquidos, anualmente.

Ah, fariseus…

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