Plínio Bortolotti

Sérgio Moro e o dono da banca

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O ministro da Justiça, o ex-todo-poderoso juiz Sérgio Moro, pode até chegar ao fim do governo Bolsonaro segurando-se no cargo, porém, restará como um “pato manco”. A expressão é usada nos Estados Unidos (país tão a gosto dos governistas) para referir-se a um político que perde prestígio, é pouco levado em conta, mas continua no cargo, sem conseguir implementar a sua política. Normalmente refere-se a chefes de Executivo, mas cai muito bem para explicar as dificuldades que Moro vive hoje na governo e o papel menor que ele vem sendo relegado. A referência à ave explica-se pelo fato de um pato manco ser presa fácil de predadores.

E o grande predador de Moro é o próprio presidente da República, que pode abatê-lo quando quiser, mas vai mantê-lo no governo enquanto lhe for conveniente. Moro perdeu (e foi rápido) o status de “superministro”, rebaixado a subordinado qualquer, obrigado a responder com um “sim senhor” a cada ordem de um Bolsonaro, cada vez disposto a mostrar “quem manda”. O gigantesco ego de Moro deve estar devastado, porém, pendurado na broxa, ele não tem como reagir.

Mas a situação foi criada exclusivamente pelo próprio e-xjuiz, que fez um cálculo político absolutamente equivocado. Normalmente esse tipo de erro acontece com aqueles que se consideram muito espertos. Porém, a esperteza, quando é muita engole o próprio dono: os exemplos são muitos, mas egos gigantescos normalmente cegam frente à razão e recusam-se a avaliar exemplos.

Moro enredou-se na trama criada por ele mesmo. Poderia ter continuado em Curitiba, mantendo a fama justiceiro sem jaça, preocupado unicamente em combater a corrupção, fazendo os ingênuos crerem que ele não dispunha de nenhuma ambição pessoal. Como juiz teria, inclusive, suportado – e com mais apoio – as mensagens divulgadas pelo Intercept Brasil que o desvelaram como chefe da Lava Jato.

Provavelmente, caso houvesse contido a sua cupidez, isso teria permitido a ele lançar-se em voo próprio, a partir de sua cadeira de juiz, sem ser catapultado por Bolsonaro, que agora trata de arrastá-lo para baixo. Trasladar-se para a política sempre foi a verdadeira intenção de Moro, apesar de de suas intensas negativas quando era juiz. No entanto, ele preferiu agarrar-se ao governo, e isso pode revelar-se fatal para suas pretensões maiores (nomeação para o Supremo ou disputar a Presidência). Está pagando pela movimentação errada nas peças do tabuleiro Brasília.

Enganou-se Moro ao imaginar que o presidente lhe daria superpoderes. E, aqui, talvez seja preciso reconhecer que ele tenha tido, verdadeiramente, a ilusão de que seria possível enquadrar Bolsonaro em um papel mais ou menos secundário, no qual brilhariam os ministro mais “espertos” do governo: ele e Paulo Guedes (Economia), com a ala militar, os generais, conseguido conter os arroubos mais amalucados do capitão. Não fosse assim, não teria embarcado na aventura que lhe está trazendo revés em cima de revés.

O que Bolsonaro fez quando sentiu-se um pouco mais seguro? Enquadrou os generais (observaram que o vice-presidente Mourão sumiu e os demais militares evitam fazer qualquer comentário que possa melindrar o presidente), e pôs os “superministros” em seu lugar: “Quem manda sou eu. E ponto final”.

Procurando-se na internet é fácil encontrar carraspanas que Bolsonaro aplica em Guedes, o antigo Posto Ipiranga, e no antes intocável Moro. Aos aparentes elogios, “Moro é um patrimônio nacional”, sucedem-se descomposturas e humilhações. A última (pelo menos até quando escrevo este artigo), foi puxar o tapete de Moro quanto a uma possível indicação ao Supremo Tribunal Federal que, para o ex-juiz, seria como “ganhar na loteria”.

No sábado (31/8/2019) Bolsonaro disse nunca ter assumido compromisso com a indicação de seu ministro da Justiça do Supremo, mas que teria dito buscar alguém “com o perfil de Moro”, desdizendo – como é seu costume – o que dissera antes por mais de uma vez. Dessa forma, Moro acaba de descobrir que, por mais que se jogue, é impossível ganhar do dono da banca.

Vai continuar manquitolando e tendo de tolerar as descomposturas do chefe, pois, para ele, não há alternativa. A não ser encher-se de brios e tomar uma atitude que demonstre que ele, de fato é, aquilo que parecia ser – para muitos – quando era juiz.

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