Plínio Bortolotti

O que deu errado na receita chilena?

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A receita chilena, que fez explodir a revolta nas ruas de Santiago, é a mesma que o ministro da Economia, Paulo Guedes, quer implementar no Brasil. No Chile, esse método foi tramada sob a ditadura de Augusto Pinochet pelos “Chicago Boys”, jovens economistas de corte liberal que não se importaram em servir um dos regimes mais sanguinários do planeta. Afinal, o fato de Pinochet ser um assassino, era mero detalhe pois, para eles, pouco importava se a política liberal fosse implementada por sobre uma pilha de cadáveres.

Uma dessas medidas liberais foi acabar com o sistema de repartição que vigia na Previdência chilena e aplicar o sistema de capitalização – a mesma que Guedes insiste em trazer para o Brasil -, na qual o trabalhador faz seu próprio fundo (sem participação patronal ou do Estado), dinheiro que é administrado pelos bancos privados. O resultado é que hoje de cada 10 aposentados chilenos nove recebem no máximo 60% do salário mínimo.

Mesmo as universidades públicas passaram a cobrar anuidades, fazendo com que um estudante terminasse o seu curso adquirindo uma dívida para o resto da vida. Além disso, serviços públicos como saúde, água e energia elétrica foram privatizados. Quem não tem plano de saúde privado e precisa de intervenções médicas mais complexas é obrigado a comprometer a renda familiar por vários anos. Os mais pobres ficam sem acesso à luz, água e esgotos.

Os trabalhadores tiveram cortados uma série de direitos. O argumento talvez tenha sido este: “Vocês preferem ficar sem direitos, mas com emprego ou sem emprego mas com direitos?” As reformas foram feitas com a promessa de que as medidas fariam a economia deslanchar os benefícios seriam estendidos a toda a sociedade.

Os liberais brasileiros adoram (ou adoravam) dar “o exemplo do Chile” para defender suas propostas, incluindo a da Previdência. O Chile parecia uma ilha de estabilidade na América Latina.

Mas, de repente, a revolta explodiu.

O que deu errado?

O fato é que o aumento de menos de 4% das passagens do metrô foi apenas o fósforo que riscou o estopim de um barril de pólvora cada vez mais cheio. Os verdadeiros motivos são as desigualdades escandalosas que hoje se abatem no mundo – inclusive em países considerados desenvolvidos, como os Estados Unidos.

E, ainda assim e novamente, a massa trabalhadora e os pobres são chamados a pagar a conta. Governantes e elite não percebem que esticar a corda ao limite põe em risco o próprio sistema sobre o qual se assentam seus privilégios. Algumas vozes mais sensatas desse próprio segmento estão alertando para a necessidade de reduzir essas disparidades. Ele observam que, sem uma correção de rota, o abismo pode engolfar a todos.

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