Plínio Bortolotti

Chile: a economia vai bem, mas o povo passa mal

“Presidente Sebastián Piñera hace ‘mea culpa’ y presenta agenda social tras abrir diálogo com sectores de la oposicion.”

Presidente Sebastián Piñera faz “mea culpa” e apresenta agenda social após abrir diálogo com setores da oposição, em tradução livre, é a manchete do El Mercúrio, principal jornal chileno, em sua edição de hoje (23/10/2019).

Piñera pediu desculpas pela sua “falta de visão” ao não perceber o acúmulo de problemas sociais que, segundo ele se acumulam desde “muitas décadas”, talvez reconhecendo a herança maldita deixada pela ditadura de Augusto Pinochet e seus “Chicago Boys”, que impuseram uma política liberal durante a ditadura. O Chile, apontado como exemplo de estabilização na América Latina, vê as consequências dessa doutrina aparecerem agora.

Como anotou a Rede França Internacional (RFI): “Com as contas em dia, o desemprego e a inflação sob controle, o país é visto como modelo por governos conservadores. Olhados isoladamente, os índices macroeconômicos de fato são de fazer inveja: o país cresce acima da média latino-americana, a 2,5%, o índice de desemprego é estável, em torno de 7% – graças a um mercado de trabalho flexível –, e a dívida pública não ultrapassa os 25% do PIB”. Entretanto, continua a RFI, “a geração de aposentados pós-reforma no Chile agora não consegue fechar as contas do mês – os benefícios chegam a ser de apenas 60% do salário mínimo, ressalta Jorge Muñoz, especialista em sociologia do trabalho e estudos comparativos entre Europa e América Latina, da Universidade de Brest, na França”.

Resumindo: a economia vai bem, mas o povo vai mal.

No Chile até as universidades públicas cobram anuidades – os estudantes contraem dívidas impagáveis -, a medicina é privatizada (não existe nada parecido com o SUS brasileiro, por exemplo) e as tarifas de água e luz ajudam a sufocar o orçamento dos chilenos. A conta recai sobre os pobres e a classe média.

Assim, não chega a ser surpreendente que o pacote de medidas sociais anunciado por Piñera, na tentativa de pôr fim à revolta, é uma espécie de correção das consequências mais nefastas dessa política. Mas devem causar horror aos adeptos do liberalismo, caso do próprio Piñera.

As principais medidas

Saúde. Criação de um teto de gastos com saúde pelas famílias. Gastos acima desse valor serão cobertos pelo Estado. Foi prometido também convênios para reduzir preço dos medicamentos.

Previdência. Aumento de 20% nas aposentadorias e pensões.

Salário mínimo. Valor base de 350 mil pesos (R$ 1.900) para trabalhadores com jornada completa. Quando o salário não alcançar esse valor, o governo arcará com a diferença.

Políticos. Redução de salários de parlamentares e de funcionários públicos com altos rendimentos.

Super-ricos. Aqueles com renda superior a oito milhões de pesos mensais (cerca de 11 mil dólares), terão de pagar impostos de 40%.

A resposta de Sebastián Piñera, na tentativa de pacificar a crise, deveria servir de alerta para governantes de várias partes do mundo, incluindo o Brasil. Porém, o ministro da Economia Paulo Guedes está levando o país para a contramão dessas providências, esquecendo-se daquele antigo ditado:

“Se você vir as barbas do vizinho pegando fogo, melhor pôr as suas de molho”.

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