Política

Quem é o cearense por trás de marca da campanha contra Bolsonaro

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Marca de movimento de mulheres contra o presidenciável Jair Bolsonaro foi criada por cearense (Foto: divulgação)

Passava das 19 horas da quinta-feira (13) quando o estudante cearense Militão Queiroz, 32 anos, postou no Instagram uma imagem que tinha levado pouco mais de uma hora para fazer.

Nela, escrita contra um céu estrelado, destacava-se a frase “Ele não” – as letras do “não” prolongando-se como cores do arco-íris.

Em seguida, Militão despediu-se da mãe, com quem mora desde os 7 anos em Limoeiro do Norte, no interior do Estado, e foi para a Faculdade de Filosofia Dom Aureliano Matos, onde cursa Letras/Inglês.

No meio da aula, checou a postagem pela primeira vez: 30 curtidas. Ao fim da noite, receberia outras duas dezenas de notificações. E só. Nos dois dias seguintes, ninguém mais interagiria com o conteúdo.

No domingo, porém, a situação mudaria. “Um amigo que mora em São Paulo mandou um direct com a imagem do ‘Ele não’. Disse que estava fazendo muito sucesso nas redes sociais”, conta Militão ao O POVO.

Aí não parou mais. “Quando fiz uma busca no domingo mesmo, muita gente estava republicando. Algumas postagens tinham 30 mil curtidas. No meu Instagram, foram só 50”, disse.

Feita num programa rudimentar que os usuários do Orkut costumavam utilizar para retocar fotos, a imagem viralizou como ilustração da campanha “Ele não”, encabeçada pelo movimento de mulheres contra o presidenciável Jair Bolsonaro (PSL).

Eu fiquei realmente muito surpreso. Pensei: nossa, muita gente postando, muita gente curtindo, até sem dar os créditos, mas eu fiquei muito feliz”, conta Militão. “Eu quero mais é que o movimento ganhe muita força. Tanta gente usando camiseta do ‘outro’…

O “outro” é Bolsonaro, a quem o cearense não cita pelo nome, mas apenas por “ele”, “o candidato”, “esse senhor”. Não é frescura, afirma o estudante. “É medo mesmo.”

No sábado, Militão conta que estava na casa de um amigo quando uma grande carreata defendendo Bolsonaro cruzou Limoeiro do Norte de ponta a ponta.

Da calçada, um grupo de homens imitou uma arma com as mãos, gesto comum nas atividades de rua de Bolsonaro, e gritou o número do candidato.

“Até então, eu via pouca gente se manifestando na cidade a favor desse senhor. É uma cidade pequena. Mas no sábado passado era muito carro, muita moto, muita gente fazendo símbolo da arma”, respondeu. “Eu fiquei com medo de sair de casa.”

Presidente estadual do PSL no Ceará e candidato a deputado federal, Heitor Freire confirma que a manifestação pró-Bolsonaro em Limoeiro no último fim de semana “foi a maior carreata do Bolsonaro no Interior, com mais de mil carros”.

O ato a favor do parlamentar contou com a participação de candidatos como Delegado Cavalcante, Capitão Wagner e Soldado Noélio, que disputam cadeiras no Legislativo.

Líder nas pesquisas de intenção de voto, Bolsonaro é rejeitado por quase metade do eleitorado feminino, que representa 52% dos votantes do País.

“Tive receio da repercussão da peça da campanha, mas a gente tem que resistir”, disse Militão, que participa de grupos LGBT no Whatsapp e acompanha o movimento de mulheres contra Bolsonaro.

“Foi por isso que fiz essa arte do ‘Ele não’. Pensei: vou esticar a cauda do ‘não’ com cada letra nas cores da bandeira LGBT”, explica o estudante, que disponibiliza seu material para venda numa loja virtual, a Stay Cool.

“É como se fosse uma resposta nossa. E as estrelas simulando o céu são as pessoas dizendo ‘não’ pra esse discurso de ódio”, acrescenta.

Na internet, a marca criada por Militão já atingiu centenas de milhares de compartilhamentos desde a última quinta-feira, passando a figurar em publicações de mulheres famosas, como as atrizes Fernanda Paes Lemes e Maria Ribeiro.

De lá para cá, dois levantamentos de voto na corrida presidencial foram divulgados – em ambos, Bolsonaro lidera com folga. Sua rejeição, porém, tem aumentado, principalmente entre segmento feminino.

No Facebook, o grupo recém-criado “Mulheres unidas contra Bolsonaro”, com mais de dois milhões de participantes, tem manifestação agendada no País para o dia 29 deste mês.

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