Portugal sem Passaporte

Engenheiros portugueses procuram novas oportunidades no Brasil

Entre os meses de Janeiro e Setembro, 1.032 portugueses receberam autorização de trabalho temporário no Brasil

Os grandes eventos desportivos que irão ocorrer no Brasil, como o Mundial de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016, tem incentivado essa procura nos mercados da engenharia e construção.  

Os serviços de engenharia e a construção de edifícios foram as áreas mais contempladas com autorizações de trabalho a portugueses no Brasil este ano, informou o Ministério do Trabalho e Emprego brasileiro.Dados oficiais mostram que, entre os meses de Janeiro e Setembro, 1.032 portugueses receberam autorização de trabalho temporário no Brasil, sendo 97 para serviços de engenharia, 74 para a construção de edifícios, 62 para actividade de consultoria em gestão empresarial e 44 para fabrico de estruturas metálicas, as quatro carreiras mais contempladas.

Para conseguir esta autorização, no entanto, é necessário um pedido da empresa contratante junto ao Ministério do Trabalho. O tempo de permissão varia e pode ser limitado ou depender da duração do contrato de trabalho.

O sector da engenharia, apesar de ser o mais contemplado, é polémico, pois, actualmente, os diplomas de universidades portuguesas e brasileiras não são compatíveis, sendo necessária uma adaptação da formação do emigrante para exercer a profissão no Brasil.

Por outro lado, os grandes eventos desportivos que irão ocorrer no país, como o Mundial de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016, tem incentivado essa procura nos mercados da engenharia e construção. Esta semana, o Governo brasileiro emitiu uma portaria que acelera a entrada de trabalhadores para esses eventos, com visto mais rápido e válido até ao fim do trabalho. A inscrição é feita pela internet.

O impacto da crise económica na chegada de emigrantes que saem de Portugal e procuram o Brasil pode ser percebido no número de vistos, permanentes
e temporários. Enquanto os vistos de viagem cultural e de estudos e de trabalho sem remuneração tiveram o seu pico de emissão em 2009 e 2008, respectivamente, com posterior redução, os vistos permanentes, de técnicos e de estudantes (incluindo graduação e pós-graduação) registaram maior volume este ano.

O presidente da Associação Nacional de Estrangeiros e Imigrantes no Brasil, Grover Calderón, afirma que a crise económica influenciou na chegada de mais imigrantes focados em trabalho e qualificação. Para o responsável, no entanto, os números do Governo brasileiro não mostram toda a realidade por não considerarem os trabalhadores imigrantes ilegais.

Carlos Matias Ramos, que tem sido uma das vozes mais sonantes em matéria de exportação de engenheiros para o Brasil, teme apenas que Portugal perca grande parte deles. “Não gosto da emigração de engenheiros, porque perdemos todo o investimento que foi feito”, aponta. Para o bastonário, a exportação pode privilegiar uma parceria entre os dois países que “mantenha os engenheiros ligados a Portugal”. 

Além dos engenheiros, o mercado brasileiro começou a atrair arquitectos portugueses. Neste momento são cerca de 200, mas “estamos numa fase inicial”, frisa o bastonário dos arquitectos, João Belo Rodeio. O mercado nacional está “estagnado, há falta de encomenda e há um estrangulamento dos arquitectos”. Belo Rodeio explica ao i que os “eventos desportivos dos próximos anos” são o principal motivo de interesse.

Há cerca de ano e meio, a Ordem dos Arquitectos portuguesa e o IAB (Instituto dos Arquitectos do Brasil) assinaram um protocolo que abrange “todo o tipo de projectos” desenvolvidos nos dois países. Os mais jovens responderam em força, mas “há cada vez mais arquitectos portugueses com know-how e estrutura” a apostarem no Brasil. “O Estado português não está a investir, não há projectos novos, corre-se o risco de os ateliês fecharem”, alerta Belo Rodeia.

No Brasil há arquitectos portugueses que vão trabalhar para ateliês, há ainda os que têm escritório cá e criam outros no Brasil e os que estão associados a construtoras. Belo Rodeia espreita novas oportunidades para os arquitectos portugueses e vai já no primeiro semestre a São Paulo e ao Rio, onde tem vários encontros marcados com entidades brasileiras, embaixadores e cônsules portugueses.

rr