Relatos de Renato

Do sexo à cena: a potência artística da cegueira

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“Volúpia da Cegueira”: espetáculo aborda a sexualidade entre os cegos, revelando descobertas e fetiches mais íntimos

“Eu não sabia que tinha esse julgamento do cego como assexuado, porque eu sempre tive uma vida sexual normal”, destaca Moira Braga, Confira: 

O público é recebido com uma possibilidade: enxergar ou não o espetáculo Volúpia da Cegueira. Um tampão de olho está à disposição de cada um. Optei por oscilar entre ver e não ver e, tendo um pouco de cada experiência, pude concluir: o espetáculo funciona das duas maneiras. Em cartaz no Teatro Maria Clara Machado, a peça acerta ao pensar o teatro como um campo de cinco sentidos e infinitas sensações.

Sim, os cegos se masturbam, transam e se lambuzam em fetiches. Eles não são coitadinhos, inocentes, assexuados. É essa a ideia central do espetáculo, mas não a única. Volúpia da Cegueira não é didático ou empacado na função de doutrinar e quebrar preconceito. A peça é também uma festa, um tapa na cara, um abraço, um gozo.

Com a direção acertada de  Alexandre Lino e dramaturgia provocativa de Daniel Porto, o espetáculo tem também a iluminação de Renato Machado, que trabalha a luz não só como imagem, mas como o calor na pele e também um caminho desenhado no chão. Em cena, os atores Moira Braga e Felipe Rodrigues (que são cegos) e Aléssio Abdon e Max Oliveira (que descobriram agora como é a “vida no escuro”). Conversei com os atores, dois dias após assistir ao espetáculo:

O que vocês puderam descobrir sobre o próprio corpo e a própria arte em Volúpia da Cegueira?

Felipe: Foi um desafio como ator. Todas as situações que a gente foi incorporado na peça, de alguma forma, a gente já vivenciou ou conhece quem vivenciou. Foi um desafio falar da vida sexual dos deficientes visuais, que é um tema inexistente para muita gente e, para mim, é a coisa mais comum do mundo. Não sei se por falta de informação, muita gente acha que não vivenciamos o sexo. A falta de convivência com o deficiente acaba fazendo com o que as pessoas pensem que nós não temos uma vida como elas. Para mim, foi uma responsabilidade enorme, porque o trabalho leva o que eu vivo para a encenação. A gente quer fazer com que o público sinta, reflita sobre o que foi colocado em cena.

Aléssio: É importante que as pessoas possam fazer uma análise de que cegos não são coitadinhos. Os cegos têm os mesmos desejos, a única diferença é a falta de visão disso que todo mundo entende que é ter visão. Desde a primeira vez conversa com o Alexandre Lino, eu fiquei muito interessado pelo processo, o tema do projeto. Tudo era totalmente distante para mim, algo que eu nunca tinha pensado. Sempre gostei muito de trabalhos que não fossem essa mesmice do teatro carioca e, de cara, esse trabalho me interessava muito. A gente fez vários trabalhos, inclusive, um em que eu saía nas ruas vendado, com uma bengala, para colocar meu corpo dentro desse outro universo. Eu acabei desenvolvendo uma outra sensibilidade no modo de me colocar no mundo: eu percebi que a minha audição triplicou. Eu ouvi coisas que eu não costuma ouvir na correria da vida das ruas como o barulho dos carros, o pássaro que canta no meio do caos do Rio.

Moira: Esse espetáculo desde o início vem me surpreendendo. Porque eu nunca imaginei que as pessoas não soubessem que os cegos fazem sexo. Eu venho me deparando com as diferenças dentro das diferenças e as bolhas de realidade. Eu percebi que eu vivo numa bolha de realidade, na minha bolhinha, eu sou uma pessoa cega, mas que, de certa forma, eu saio um pouco do padrão da maioria dos deficientes e eu mesmo não tinha percebido isso.  Eu não sabia que tinha esse julgamento do cego como assexuado, porque eu sempre tive uma vida sexual normal, assim como a profissional, e nunca me vi  nesse lugar de estranheza, eu não sabia que isso era quase como um senso comum.

Max:  A peça permite que outras pessoas, que não convivem com cegos, consigam perceber esse lugar da naturalidade. Eu passava seis horas nas primeiras semanas do ensaio vendado, era muito difícil ficar todo tempo vendado. Estar de olho fechado é uma sensação de ampliação muito grande da audição, porque você percebe sons em cena. Você ouve a plateia, ouve detalhes, parece que, não enxergando, você realça os outros sentidos: sons, cheiros, temperatura, por mais que você não veja a luz, você sente na pele.

O texto traz muito o conceito da “vida no escuro”, eu fiquei refletindo: o que seria essa vida no escuro?

Moira: As cegueiras têm infinitas possibilidade de como se dá. Tem os que nasceram cegos, tem os que vão ficando cegos, tem quem fique cego depois de velho, enfim, no meu caso, eu tenho uma doença degenerativa e fui perdendo a visão desde pequena. Eu morava numa cidade pequena em Minas Gerais e, desde pequena, a cegueira nunca foi uma questão para mim. As dificuldades iam aparecendo e eu sempre ia resolvendo. Eu estudei, fiz faculdade, fiz pós, mudei de profissão, virei atriz, bailarina, namorei, casei, me separei. Isso é uma vida dentro de uma realidade comum social. Eu ouvi “existe vida no escuro” e pensei: como as pessoas podem achar que não?

MaxA gente vive um mundo de imagens. Somos bombardeados, porque tudo passa pela visão e, então, a gente anula naturalmente os outros sentidos. Se você perde a visão, as pessoas agem como se não existisse nada além dela, mas ela é só um dos sentidos.

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“As pessoas nos olham e já veem a deficiência, não percebem que tem alguém ali”, critica Felipe Rodrigues

Aléssio: Eu acho que é o preconceito que tem da maioria que enxerga. Eu fui resolver vários preconceitos que eu tinha depois que eu fui me envolver com o trabalho. O senso comum acha que quem não enxerga perdeu tudo.

Max: E isso é uma visão rasa do mundo. Tem muitas coisas que a gente faz e fecha os olhos durante para sentir mais, para perceber mais as coisas. Às vezes, você precisa fechar os olhos, só que a gente não se dá conta disso.

Felipe: Como qualquer tipo de deficiência, que todo ser humano tem, há suas dificuldades e limitações. Só que o deficiente visual é aquilo ali aparente, você vê aquela pessoas e fala: aquela ali é deficiente. E é uma reação bem comum das pessoas estranharem aquilo. “Caramba, aquela pessoas é muito diferente de mim porque tem aquela deficiência”. As pessoas nos olham e já veem a deficiência, não percebem que tem alguém ali.

Moira: Quando a pessoa se depara com o que é muito diferente, ela encara aquilo como algo assustador.

Vocês acreditam que as artes (não só o teatro) ainda são muito voltadas a quem enxerga? É preciso pensar a arte para quem não enxerga ou não? 

Felipe: Depende muito de como a arte é desenvolvida. A gente teve uma melhora significativa no cinema e no teatro em relação à audiodescrição, que é um elemento que a gente tem a nosso favor e nos ajuda muito. É um serviço que está crescendo e é fundamental para o nosso entendimento em alguns espetáculos. Isso ajuda, mas a arte ainda é muito voltada para as imagens.

Moira: Eu não acho que tenha que fazer arte para quem não enxerga. Tem que fazer arte para todo mundo e cada um vai perceber esse produto artístico da maneira que é possível. Imagina você chegar para um pintor e falar: “Ah, não, você não pode mais fazer isso, porque agora você tem de fazer um trabalho para que não enxerga”. Isso seria colocar limites para a arte. Isso não é possível. Acho que é uma questão de sensibilização, você dar acesso de alguma forma.

Felipe: A questão é essa: dar acesso. Não precisa modificar a arte, só dar acesso. É o que a gente precisa não só na arte, mas na vida. É preciso dar essa possibilidade para nós, cegos, não modificar ou transformar as coisas, só dar a mesma condição para a gente, que todas as pessoas tem.

Alexandre Lino (que acompanhou toda a conversa com atenção) acrescentou: Na verdade, isso é uma questão de educação para o estímulo ao consumo da arte. Isso é uma carência que a gente tem dentro do País de um modo geral. Não é só o cego que não tem acesso à cultura, é a população brasileira em geral. E aí a gente vai além, se o ensino (a educação básica) cria esse estímulo, independente de ter deficiência ou não, vai despertar uma potência maior se as pessoas diferem contato com a a arte de qualquer maneira. O que acontece é que é sonegado para qualquer indivíduo a relação com a arte. Tem gente que nunca foi ao teatro com 50 anos de idade e isso é um absurdo.

Aléssio: Se a gente for para a nossa região (assim como eu, o ator é também cearense), no interior do Nordeste, o que mais a gente vai encontrar é gente que nunca foi ao teatro. Quem foi é exceção.

Moira: Gente, não precisa ir muito longe. Se você vai numa comunidade no Rio de Janeiro, que está do lado de um monte de teatro, tem gente que nunca foi a um.

Por fim, eu pude observar que a sexualidade é tratada dentro do espetáculo muito como autoconhecimento. Ela está inserida no voltar a si mesmo, seja na busca do prazer ou dos instintos e tudo mais. O que de autoconhecimento participar de Volúpia da Cegueira trouxe para vocês?

Felipe: No meu caso, foi sobre a arte de atuar. Cada projeto novo, a gente fica nervoso, porque não sabe como vai desenvolver o trabalho dentro de si. A Volúpia da Cegueira é a peça mais difícil que eu já fiz. Ela não tem uma unidade só, nós não somos um personagem só. São muitas coisas juntas. Um hora eu sou um filho falando (de masturbação) com os pais; outra hora, estou tentando conquistar um moça e, em outro momento, sou um homossexual.  É muito difícil ter todas essas unidades dentro de uma peça.

Aléssio: Uma dificuldade dentro do processo é que o Alexandre Lino dizia: “Eu não quero um personagem. Eu quero vocês vivendo essas situações que a gente fala e discute no espetáculo”. Como a gente tem uma tendência de criar personagens, isso foi a maior dificuldade para mim. Simplesmente se colocar dentro daquela situação sendo aquela pessoa que diz aquelas falas. Tem coisas muito difíceis de falar na peça, que se não fosse no palco, eu jamais falaria, porque eu sou muito tímido. Se colocar naquela situação, sem a defesa do personagem, foi muito difícil.

"Volúpia da cegueira": as descobertas e fetiches mais íntimos da "vida no escuro"

Sadomasoquismo, sexo grupal e diversidade de orientações sexuais são alguns dos temas do espetáculo

Max: Nas escolas de teatro, sempre trabalhamos o lugar do personagem e, para mim, acho que não ter isso, também foi o mais difícil. Tem também o lugar da cegueira, que é o grande foco do espetáculo, mas a questão técnica, de não criar o personagem, foi mais difícil. E a peça foi criada a partir também da gente, o texto traz elementos de histórias reais e também do que a gente trouxe. O texto foi sendo construído a partir de improvisações nossas, foi um desafio para mim. Tem também a questão corporal, desse corpo que é mais vivo, mais estático, mais preciso.

Moira: Para mim, o autoconhecimento veio por me expor mais e expor uma Moira diferente. Como era uma atriz contando uma história. Então, foi bom despertar uma força num lugar que eu não uso no meu cotidiano. Despertei uma agressividade, não só na cena do sadomasoquista, mas tive que o tempo inteiro trazer uma força que não é da Moira do dia a dia, que é mais delicada. Foi muito bom despertar essa outra força, esse outro estado de mim mesma.