Relatos de Renato

Crítica: Vagabundos, o caos é pop

Obra é destaque na Capital desde a estreia, em 2013. (Foto: Alex Hermes/divulgação)

O caos é pop

      Em um fragmento de cena que compõe o espetáculo Vagabundos, o público se vê diante da escuridão. O palco está completamente apagado e uma voz de locutor de futebol narra a derrota da democracia brasileira no melhor estilo Galvão Bueno às avessas. Michel Temer dribla a regras, Dilma Rousseff é derrubada no gramado e outros fatos políticos são subvertidos na partida sem fim que é esse momento atual. Numa linha porosa entre o deboche e a denúncia, a obra investe no caos de cenas, referências da cultura pop e linguagens artísticas para (des)contar uma história. Tudo misturado. Vagabundos é uma síntese ébria da nossa década.

Se fosse música, esse trabalho nascido no curso de Teatro da Universidade Federal do Ceará (UFC) seria o álbum Antes Que Tu Conte Outra, da banda gaúcha Apanhador Só. As duas obras nasceram em 2013 e sofreram forte influência das manifestações que tomaram o País contra os desmandos sociais engatilhados pela Copa do Mundo de 2014. Algumas cenas da peça parecem ter paralelo direto com músicas da banda como Mordido e Despirocar. Obra cênica e álbum são bagunçados. Os músicos usam gaiola, ralador de queijo e molho de chaves como instrumentos. Já o espetáculo vai além.

Em cena, os 24 artistas arremessam objetos — chegando a jogar uma geladeira (!) no palco. Mas, apesar do caos que os objetos cênicos provocam na plateia, o arremesso mais interessante é o de ideias. Sem um filtro muito lógico, tudo cabe nos discursos que são lançados ao público, formando um caleidoscópio muito despretensioso. A obra abraça desde uma fábula envolvendo  Elke Maravilha numa viagem espacial até causos que acontecem no Bar da Loura, na Praça da Gentilândia, no Benfica.

Em cena, 24 artistas passeiam entre a dança, o teatro e a performance (Foto: Alex Hermes)

Por outro lado, a autorreferência continuada enfraquece em alguns momentos a energia da obra. Os performers levam para o palco o que vivem no circuito Benfica-Centro Dragão do mar e isso causa um impacto imediato no grande público do espetáculo – que normalmente circula nos mesmos lugares. Em alguns momentos, porém, a plateia que não domina todas as referências parece ficar de fora daquele papo entre amigos. Enquanto parcela do público cai na gargalhada com uma provocação, a outra parece não ter noção do que se trata.

O trabalho de corpo é o ponto alto da montagem. Andréia, com consistente trajetória na dança, propõe imagens muito ricas em signos e que, por vezes, chegam mais do que o mundo de palavras que é despejado em determinadas cenas. Num elenco tão grande, há, porém, discrepância de sustentação corporal. Algumas cenas que são finalizadas por blackout, por exemplo, acabam sendo desmontadas antes do tempo, porque os atores parecem não sustentar poses que eles mesmos propõem.

Até essas baixas parecem ser questões interessantes na montanha-russa que é Vagabundos. A montagem desperta graça e revolta como poucas peças, na nossa cena teatral recente, conseguiram despertar. O público quer Vagabundos. Peça e plateia são a mesma multidão inconformada e dispersa.

Espetáculo Vagabundos
Quando: domingo, 25, às 19 horas (última apresentação da temporada)
Onde: Sesc Iracema (R. Bóris, 90 – Praia de Iracema)
Gratuito
Telefone: 3252.3435

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