Relatos de Renato

Crítica: Afoita (e o mar é tão longe)

Montagem nasceu no Curso Princípios Básicos de Teatro (Foto: Tim Oliveira)

E o mar é tão longe

Em Balada de Gisberta, música do compositor Pedro Abrunhosa que ficou famosa na voz de Maria Bethânia, é narrada a história de uma transexual morta, após sofrer todo tipo de violência nas mãos do ódio gratuito dos homens. Gisberta existiu e sofreu as dores de viver numa sociedade transfóbica e, sobretudo, machista. As mulheres de Afoita são também Gisbertas. O amor, que é distante para a mulher retratada na música (“E o amor é tão longe”), é como o mar, distante das mulheres da peça.

Montagem da turma do Curso Princípios Básicos de Teatro da noite (2015/2016), a peça é ambientada numa vila de pescadores imaginária, que é, na verdade, uma grande alegoria da sociedade. Nessa terra molhada, o mar é sonho inalcançável e, ao mesmo tempo, é a mais dura realidade. Os homens são endurecidos pela maresia e as mulheres enrijecidas pela falta de possibilidades. A direção é de Neidinha Castelo Branco.

Apesar da dramaturgia pouco conexa e do uso coadjuvante da palavra, a história contada chega ao público. Não com linearidade de uma narrativa convencional, mas com a beleza de uma trama imperfeita e traçada por fios soltos e incompletos. A frase “Mulher não vai ao mar”, porém, entra em cena tarde demais e o conflito que rege os corpos em Afoita demora a se fazer presente. Antes disso, as provocações são jogadas ao vento como imagens, que são bonitas plasticamente, porém sem a força que poderia ter se já evidenciasse o machismo (simbólico ou real) que traz tanta força à montagem.

O corte quase cirúrgico entre gêneros, inclusive, é um dos pontos fracos da peça

O feminismo é vivo em Afoita e a força da mulher está presente no corpo das atrizes, que parecem ter total domínio das movimentações em cena. O mesmo não pode ser dito do corpo uno formado pelos atores, que se desagrega em vários momentos. A junção dos homens, porém, tem momentos de sincronia, especialmente quando estão em alto mar, no movimento de remo.

O corte quase cirúrgico entre gêneros, inclusive, é um dos pontos fracos da montagem. Perde-se a oportunidade de falar que o machismo está também no feminino, assim como a luta pela igualdade entre gêneros também pode ser abraçada pelo masculino. Nesse jogo homem x mulher, se perde, em alguns momentos, um dos artistas mais interessantes em cena. Kahlo de Oliveira, que habita entre o masculino e o feminino, em alguns momentos simplesmente desaparece do palco. A impressão passada é que de não sabe muito bem o que fazer com o não-binarismo na cena e se apaga quem deveria ter destaque.

O espetáculo ganha muito mais quando tudo se confunde e os gêneros todos são somente artistas. Recorrendo à fala de Clarice Lispector (e trazendo da literatura para o teatro): as mulheres e os homens quando narram são, como dizia a Clarice, nem mulheres e nem homens: são mulheres e homens. É nisso que a peça pode crescer ainda mais.

A iluminação, muito bem trabalhada, tem tons que vão além do previsível azul. É tão eficiente e teatral quando a trilha musical, bem executada ao vivo. O espetáculo como um todo é uma linda estreia para um grupo visivelmente instigado e interessado em criar. O desejo que fica é que Afoita seja o início de uma trajetória ainda mais profunda nesse oceano turvo das artes cênicas.

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