Relatos de Renato

Bonecos e objetos fecham mostra com brilho e criatividade

O pequeno casaco solitário, montagem do Grupo Bagaceira de Teatro|   (Foto: Fernanda Leal)

Texto de Dib Carneiro Neto

Crítico convidado*

No último dia de programação do IV Festival de Realizadores de Teatro Infantil, a animação marcou presença nas duas peças, com técnicas diferentes. O Intrépido Anãmiri, do Grupo Bricoleiros, usou o bunraku, a animação à vista da plateia. O Pequeno Casaco Solitário, do Grupo Bagaceira, enveredou pelo teatro de objetos animados. Vamos a elas.

O Intrépido Anãmiri é um espetáculo que já tem 23 anos no repertório dos Bricoleiros e veio sofrendo modificações e atualizações ao longo dessas mais de duas décadas. Trata-se de uma aventura que, ao final, ensina explicitamente (pena!) que “a verdadeira magia está em acreditar em si próprio”. Nesse caso, como a frase vem do personagem de um velho mago todo formal, até que o recurso moralizante não soou tão artificial e forçado.

Os bonecos (menino, bruxa, mago, cobra, morcego e tantos outros) são atraentes, muito bem confeccionados e criativos. A manipulação também é boa, atenta, delicada, precisa – com exceção de alguns poucos momentos em que a parte de baixo (pernas e pés dos bonecos) fica descuidada. Mas nada muito grave.

É uma atração que funciona muito bem com a garotada, pois – à moda das peças de duas décadas atrás – requisita o tempo todo a participação da plateia, com perguntas do tipo “Onde ele está?” ou “Para onde ele foi?” É um recurso retrógrado, desnecessário, que só evidencia a falha da dramaturgia em não dar conta, por si só, de uma trama envolvente. São muletas para iludir que a plateia se interessou pela peça. Mas, de novo, aqui não incomodou tanto, pois a aventura que se desenrola no palco prevê que as crianças sejam ‘parceiras’ dos personagens na resolução das tramas e subtramas.

O incensado e premiado Bagaceira, que vez ou outra se arrisca no teatro para crianças, simplesmente estendeu um casaquinho listrado no varal e fez seu espetáculo sobre a solidão. É inacreditável a potência criativa da companhia e de seu espetáculo, escrito e dirigido por Yuri Yamamoto. Fechou o Encontro de um jeito impactante, surpreendente. É teatro de hoje, contemporâneo, atrevido, ousado. Torna-se até incontrolável não amontoar uma série de adjetivos nesta crítica, perdão.

O Pequeno Casaco Solitário é teatro para todas as idades. Teatro que aposta na sugestão, no símbolo, na metáfora, na ressignificação de objetos, mais do que na entrega ‘de bandeja’ do enredo à plateia. Em vez de criar uma mera ‘estoriazinha’ (grafada assim de propósito), com um personagem que fica o tempo todo vomitando lições de moral, o Bagaceira desfila uma série de situações que dão conta de inúmeras sensações e falam de solidão com muito mais força do que se fosse de um jeito explícito. Tudo o que se contar aqui estragaria o arrebatamento de se descobrir a peça sem nada saber sobre ela de antemão.

A trilha sonora (também de Yamamoto) é inusitada em peças infantis. Tem de Elvis a Beatles. Um extremo bom gosto musical, capaz de fisgar os pais e aguçar a curiosidade dos filhos. A iluminação de Tatiana Amorim é inteligente, marcante. O casaco no varal, graças à luz, ganha um volume, uma materialidade tão concreta, que chega a arrepiar. O elenco (Ricardo Tabosa, Rogério Mesquita, Tatiana Amorim e Yuri Yamamoto) brilha tanto no humor quanto na poesia, no deboche como no romantismo, na paródia como no tom memorialista embutido na trama. Vão bem na manipulação dos objetos tanto quanto cantam ao vivo com afinação e graça. Enfim, um espetáculo completo, que merece vida longa e muitos convites para tantos outros festivais. Parabéns com louvor ao Bagaceira.

*Dib Carneiro Neto, radicado em São Paulo, é jornalista, dramaturgo e editor-chefe do site Pecinha É a Vovozinha!, especializado em teatro infantil

 

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