Relatos de Renato

Pelo direito de se maravilhar no teatro

Peça O Intrépido Anãmiri (Foto: Fernanda Leal)

Texto de Leidson Ferraz

Crítico convidado*

Depois de quase uma semana de apresentações, sexta-feira passada chegou ao fim o IV Encontro de Realizadores de Teatro Infantil de Fortaleza, promovido pelo Grupo Pavilhão da Magnólia, mostra bastante diversificada do fazer teatral para crianças na cidade. O encerramento no Teatro SESC Iracema foi mais do que especial, com duas encenações de qualidade inegável na linguagem do teatro de animação. Contando já com 23 anos de carreira, a peça O Intrépido Anãmiri, do Grupo Bricoleiros, trouxe à cena bonecos muito bem confeccionados, de manipulação direta e para balcão, num espetáculo de sensações, literalmente. Do risco ao medo, da surpresa à empolgação de torcida, a proposta impulsiona a participação ativa das crianças durante todo o enredo, convidadas a acompanhar a jornada de um pequeno aprendiz de feiticeiro que perde seus poderes

Ele, então, vai pedir ajuda ao seu Mestre, que o indica a passar por três desafios, enfrentando animais perigosos e até uma bruxa. Com trilha sonora cinematográfica, muito bem escolhida para compor os variados climas que a história propõe, não faltam sustos, adrenalina, suspense e muita diversão. Esse jogo de emoções tão distintas é chamariz para prender a atenção de qualquer um. As passagens de tempo, quando os cenários são modificados à meia-luz, mas deixando em evidência como acontece, reforçam ainda mais a ideia de que o teatro também pode ser mágico e tudo se transforma. Os atores-manipuladores Cristiano Castro (à frente da direção e dramaturgia, entre outras atividades), Eliania Damasceno e Marconi Basílio, se permitem ao improviso e dão um show de precisão na manipulação das variadas personagens. 

As crianças sentem-se como parceiros desta aventura, cheia de efeitos especiais. Destaque para a aparição da bruxa e o ótimo uso da máquina de fumaça para dar um tom ainda mais encantatório aos números de flutuação e surgimento e desaparecimento das figuras. Apenas uma personagem, a aterrorizante árvore falante, me pareceu que poderia ter mais vida em cena. Mas o trabalho é um deslumbre aos olhos e valoriza o conceito múltiplo desta arte, inclusive de integração entre bonecos e espectadores. Quem também se mostrou aberto à ousadia e às possibilidades exploratórias da animação foi o Grupo Bagaceira com O Pequeno Casaco Solitário, um primor de espetáculo concebido a partir de objetos do cotidiano: roupas e sacos plásticos, entre outros elementos

Tudo acontece em frente a um varal onde um singelo suéter listrado é colocado. Com manipulação delicada, ele ganha vida e sentimento, repleto de carga emocional. A partir daí, diversas outras personagens vão entrando e saindo da sua existência – peças de vestuário com personalidade ímpar, do bebê chorão à mocinha apaixonada –, tudo para nos fazer ver as tragédias cotidianas possíveis, onde não falta muito humor também. Com roteiro dividido por variadas histórias curtas (dramaturgia de Rafael Martins e direção de Yuri Yamamoto), a montagem prima pelo cômico, o poético, o estranho e o simbólico, e deixa um gostinho melancólico mais do que saboroso ao final. Diferentes texturas, volumes, cores e saudade dão o tom da proposta.

Sem uso da palavra, mas com acertada trilha sonora recheada de jazz, blues, baladas românticas e rock’n’roll, as historietas entram e saem de cena como o passar da própria vida, com suas sortes e azares. Bem humorada, a peça começa com os atores Yuri Yamamoto, Tatiana Amorim, Ricardo Tabosa e Rogério Mesquita vestindo seus próprios figurinos negros e usando óculos escuros, numa debochada possibilidade de ocultação dos manipuladores. Além de ideias bem boladas, como a referência hitchcockiana às tesouras-pássaros que são um perigo ou a subversão do que seja permitido às meninas ou meninos, quando dois rapazes disputam o glamour de um vestido de baile de 15 anos, há também momentos sui generis, como a bandinha que executa uma canção completa dos Beatles para reforçar o caráter de memória ali presente, e as aparições de um lixeiro sádico que põe fim a uma possibilidade de final amoroso feliz. Ou seja, imagético e sugestivo, “O Pequeno Casaco Solitário” é um deleite para pessoas de todas as idades e mostra que ter conceito, experimentação e mergulho neste fazer teatral, não exime a presença da brincadeira também, no melhor sentido da palavra.

Jornalista e pesquisador teatral pernambucano* 

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