Repórter Entre Linhas

Faixa a faixa: fundadores da Plastique Noir comentam EP de raridades ‘Offering’

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Formada em outubro de 2005, há exatos 12 anos, a Plastique Noir firmou seu nome na música gótica. O som autoral da banda pós-punk com referências às bandas tradicionais do gênero, como The Cure e Sisters of Mercy, ganhou projeção dentro e fora do Brasil. Em janeiro de 2006, veio o primeiro CD-R demo: “Offering“, que apontou caminhos para a banda que se estabeleceria dentro do cenário independente.

Pela primeira vez, o blog Repórter Entre Linhas escolhe um disco de demos para ser comentado faixa a faixa. A ideia foi do fundador e vocalista Airton S, que teve a iniciativa que convidar o ex-colega de banda e co-fundador Márcio F Benevides para comentar as primeiras composições do então quarteto. Além deles, Max Bernardo (sintetizadores), que morreu em 2010, e Danyel Noir (baixo) completavam a formação.

“Nessas músicas iniciais da Plastique, nossas influências ainda eram bem nítidas, apesar de já termos nascido com certo “pedigree” estilístico, visto que o quarteto original era composto por 4 demenciais enciclopédias musicais – sem falsa modéstia”, diz Márcio. “Gradativamente nosso som foi se lapidando num formato mais minimalista”.

Primeira formação da Plastique Noir contava com Danyel Noir, Márcio “Mazela” Benevides, Airton S e Max Bernardo (Foto: Reprodução)

De lá pra cá, a Plastique Noir lançou o elogiado EP “Urban Requiems” (2006), distribuído pelo selo alemão AF Music, e o primeiríssimo álbum oficial, “Dead Pop“(2008). Foi nessa época que o baixista Max Bernardo deixou o grupo por problemas pessoais. “Max foi parte essencial da Plastique Noir”, comentou Airton na época do falecimento do amigo. “Ele gravou todos os sintetizadores dos discos Offering, Urban Requiems e em quase todo o álbum Dead Pop”.

Com festivais importantes como Abril Pro Rock (Recife-PE), Woodgothic (São Thomé das Letras-MG), Wave Summer Festival (São Paulo-SP), Feira da Música (Fortaleza-CE), Bananada (Goiânia-GO) e DoSol (Natal-RN) na bagagem, a banda lançou outros dois discos: “Affetcs” (2011) e “24 Hours Awake” (2015).

Márcio, que hoje comanda a Black Knight Freqüency, banda de abordagem darkwave mais contemporânea, como ele mesmo gosta de chamar, diz que as demos foram gravadas sem grandes expectativas. “Éramos uma ‘zebra’ na cena fortalezense. (Offering) Acabou reverberando internacionalmente e hoje se tornou item de colecionador”, lembra. “Tenho muito orgulho desse disquinho que fizemos em produção caseira totalmente independente”.

Faixa a faixa: Offering (2006) – Plastique Noir
Por Airton S e Márcio F Benevides

Six Feet Under

Airton: “Debut de uma banda gótica cearense, depois de muitos anos sem que nada no estilo tivesse aparecido por aqui? Ora, é claro que o lance era soar o mais tenebroso possível, então simbora apanhar os clichês do gênero, sendo poesia declamada um dos mais célebres. A letra inteira (incluindo os versos da longa intro) é do Márcio – aliás, sinto falta da escrita dele. Acho que é nossa faixa mais longa até hoje… Quase 7 minutos, se não me engano. Vira e mexe, aparece alguém pedindo em shows. A estrutura tem muitas mudanças, inclusive de ritmo. Acho que o Márcio brincou dizendo que era o primeiro “progótico” da história (risos). Eu gosto. Tem um quê de Sisters of Mercy no riff, mas eu já buscava cantar fora da região do Eldritch, inconscientemente puxando pro Moorings, talvez, algo mais nasal…”

Márcio: “Desenterrada a segunda composição que bolei pra começarmos – à base de sonhos e cachaça – a banda em 2005. É uma canção de letra ultrarromântica amparada numa musicalidade sombria de mid-tempo, bem dentro dos clichês basilares da cultura gótica/dark. “Sofrência nas trevas” – mas com punch e propriedade. “Épico fúnebre” seria o epíteto desta carta suicida musicada em vários climas instrumentais – da récita fatalista ao disparo pós-punk/coldwave”.

Desire Or Disease

Airton: “Lembro que a compusemos e, na mesmíssima noite e ocasião, já gravamos em vídeo pra sentir como ficou, aproveitando que o Danyel tinha uma câmera ali do lado dando sopa. Era a única maneira dentre as mais imediatas de se fazê-lo numa época sem smartphones. É até o caso de saber se ele ainda tem essa gravação, porque eu mesmo queria muito ouvir. Deu uma empolgação da porra, porque ali mesmo a gente sentiu que “estava acontecendo!” Batida 4×4, baixo pulsante, guitarra dedilhada que o Márcio já trazia de seus devaneios criativos em casa… Naquela noite voltamos eu e ele do ensaio juntos e, no ônibus, com a impressão ainda fresca da música na alma, eu meio me sentia num desses filmes obscuros dos 80s com neons, asfalto molhado, desolação… Foda”.

Márcio: “A primeira música/letra parida pra um projeto, a gente nunca esquece – tanto é que estou resgatando-a com o Black Knight Frequency, com novos arranjos e comigo cantando. É resultante da época em que eu ouvia muito flamboyant (elo perdido entre o dark, o new romantic e a farofa), como The Cult, The Mission, Gene LovesJezebel, mas também a então novidade finlandesa do glamgoth rock de HIM, 69 Eyes, Charon etc. A temática ultrarromântica se repete aqui, contudo sob auspícios de psicopatia e submissão, com uma pegada “viril”. É uma música que transborda: o presente das trevas é sexy, mas você dança triste”.

In Thorns And Blades

Airton: “Essa eu nem tive muito trabalho, o Márcio já trouxe praticamente toda pronta de uma parceria que ele fez com o David Pantera, nosso brothão, hoje tatuador dos mais conhecidos na cidade. Era pra ser um hard rock, algo nessa linha, talvez um stoner metal porque, na época, o David estava quase pra formar o Roadsider, eu acho. A composição ficou pra gente. Tem aquela palhetada “com freio” que caracteriza o gênero. Eu nunca gostei muito desses lances quando aplicados ao gótico, tipo 69 Eyes etc. Mas sei lá, naquela situação, quando ainda não tínhamos quase nada pra mostrar e um prazo correndo até o show de estréia – que o Babuê, louco como sempre, já tinha se apressado em marcar – pareceu uma boa idéia manter na track list”.

Márcio: “Creio que, junto às faixas anteriores, contempla a primeira tríade de canções mais rockers (com guitarrões, vários riffs e licks) do PN e de letras que celebram o romantismo decadente e a perversidade coroada (temas que manteríamos, porém sob nova chave). Na verdade, essa música surgiu de uma parceria minha com o David Pantera (ex-Roadsider) num projeto voltado ao supramencionadoglamgothic rock (uma vertente mais pesada, com toques de hard rock 80’s e doom metal) – que acabou nunca rolando. Assim como “SixFeetUnder”, é uma faixa longa e com várias partes, que também saiu dos sets – aliás, foi a primeira a rodar, pois é meio destoante do resto do repertório. A influência de Sisters of Mercy é evidente, apesar de nossos arranjos serem personalizados e mais trampados – destaque para os synthsfantasmáticos de nosso saudoso Max (in memoriam)”.

Creep Show

Airton: “Essa é obrigatória em shows até hoje. A ventania na entrada deve ter sido ideia do Max, putz, eu não admitiria um negócio desses hoje em dia numa música nunquinha (risos), mas é engraçado como faz todo sentido que essa idéia deliciosamente boba esteja lá em Creep Show. A gente não era muito ligado em death rock nesse momento inicial da banda, curtíamos uma coisa ou outra, mas certamente não tava na mira preferencial. Estou falando isso porque há quem enquadre Creep Show nesse estilo. Pode ser. Tem uma vibe joker e uma referência real de horror, um tema delicado, até – sem tripudiar, mas na real forçando uma dicotomia, um rasgo ingênuo entre ética e estética, coisa que já não faríamos hoje”.

Márcio: “Se bobear, esse, que foi o nosso primeiro death rock (vertente gótica mais voltada ao terror, com certo humor – obviamente negro), foi também o primeiro “hino” da banda, até hoje pedido e tocado nos shows Brasil afora. A letra sinistra (retorno do infame Menguele com experimentos à la Re-Animator) é do Airton e a música (que possui uma atmosfera bem sarcástica) é minha – e nela eu encontrava alguns momentos oportunos pra performances demoníacas no palco; afinal, caras-e-bocas fazem (ou faziam) parte daquele zumbi chamado rock”.

Silent Shout

Airton: “Foi minha favorita por muitos anos. Não sei exatamente onde o Márcio mirou: se no Cure, no Smiths… A forma é bem simples, os acordes etc mas o baixo é intricadaço, Danyel bolou quase um solo, acho até que ele é quem “ataca” e conduz a composição, e não a guita. Outra letra minha, como em Creep Show, tempos em que eu era letrista quase secundário… Naquele papo de “factory town”, eu citei Bauhaus. E a idéia de prolongar o instrumental a perder de vista, eu acho que nós roubamos do Elegia em “Typhoon Eye”, como também foi deles que roubei a idéia dos claps em “In Thorns and Blades” tal qual eles fizeram em “Escravos”. Não tenho a menor vergonha de dizer isso, foram influência – e nacional, que interessante!

Voltando um pouco, estou lembrando agora também que a idéia de fazer um vocal todo emendado em Creep Show, quase sem respirar, eu roubei de “Mortal Remains” do Das Projekt. Já falei isso na cara deles (risos). Enfim, na real tudo isso é muito maravilhoso, eu vejo como um momento bacana do gothic rock brasileiro, chegamos um pouco atrasados em relação aos citados, mas na mesma época que muita coisa que era nova naquele momento e que era massa também, tipo Jardim do Silêncio, Luiza Fria, Escarlatina Obsessiva, Days Are Nights… Gosto de pensar que o Offering se insere bem naquele saudoso contexto”.

Márcio: “Outra letra do Airton e outro hino obrigatório até hoje; demonstra uma faceta mais “agridoce” e menos sombria da banda, com direito a violões folk do Danyel e ambiências que remetem a outras grandes inspirações nossas: The Cure e The Smiths. Pop melancólico (a minha versão primitiva era mais agressiva, com guitarras distorcidas, vocais gritados), versos existencialistas (uma ontologia da dor que gera reflexões cinzentas)”. Concebemos a ordem das faixas meticulosamente e essa foi a melhor conclusão que achamos para este EP.

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