Repórter Entre Linhas

Faixa a faixa | 10 anos após o lançamento, Maldita comenta o álbum ‘Paraíso Perdido’

Há 10 anos, a banda carioca Maldita fincava seu nome no rock industrial independente. Depois de 53 shows tocando o disco de estreia Mortos ao Amanhecer (2005), o grupo entrou em estúdio para gravar Paraíso Perdido. Produzido por Pedro Burckhauser, o álbum se fez político ao lançar o clipe documental de Bastardos da América, gravado na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro.

Paraíso Perdido foi mixado em Nova York, nos Estados Unidos, pela Sterling Sound. A casa tem no catálogo trabalhos de bandas como My Chemical Romance, Imagine Dragons, Cage the Elephant e Arcade Fire. Com referências de Rammstein, Nine Inch Nails, System of a Down e Megadeth, a Maldita entregou um disco pautado no universo do personagem Coágula, conhecido dos fãs, mas com interferências do mundo que o cercava.

“Coágula permanece como relator, assinando o que se lê e o que se repudia. Transcreve o que absorve, alimenta-se e expele”, descreveu a banda na época do lançamento. De lá pra cá, a Maldita lançou os álbuns Nero (2010) e Estranhos em Uma Terra Estranha (2016), além do EP Montagem, lançado em 2012. Ao blog, o vocalista Erich (Coagula) Eichner comenta faixa a faixa o disco lançado em 2007.

Faixa a faixa: Paraíso Perdido (2007) – Maldita
Por Erich Eichner

Paraíso Perdido, faixa-título do álbum, é uma referência ao livro de John Milton de 1667 situada em tempos modernos. A música conta o início da trajetória do personagem central do álbum, Coágula, e sua sede de vingança. “Minha vingança não vai ter fim”, por todos aqueles que o traíram quando voltarem para casa, o deixaram para trás, no inferno”.

Santos e Pecadores fala sobre os seres humanos e as diferentes formas de indulgências que nutrem os seus corpos e os afastam de suas almas. Aqui temos uma lista de atos hedonistas como o sexo sem limites, o abuso de substâncias alucinógenas e o prazer alcançado através de posses materiais como formas de encontrar a iluminação”.

Passivo/Agressivo é a primeira balada do álbum. É uma distopia envolvendo o relacionamento humano entre o homem e a mulher. – “O amor em seu estado desprezível, o homem é um monstro e a mulher é horrível” – Originalmente a música iria se chamar ‘Ejaculação’ e era para ser uma balada romântica”.

Coágula é uma música de atmosfera obscura e ralentada, na qual podemos acompanhar o processo de transformação de Cóagula à medida que ele localiza e executa de forma atroz aqueles que o deixaram para trás no inferno. No final temos uma mudança melódica na música que simboliza um novo amanhecer e a metamorfose dele em algo maior, porém ainda assim detestável. – “Não se preocupe, se você fosse eu, você também se odiaria, feche os olhos para não ver a visão de um mundo superior'”.

Bastardos da América. Essa música de refrão pegajoso – “Nós somos todos bastardos da America, nós também somos filhos do Senhor” – é diferente de todas as demais do álbum e é uma crítica não somente aos Estados Unidos, mas também àqueles que criticam o país pois não deixam de ser dependentes da sua indústria capitalista. No final uma mensagem sarcástica para nós Brasileiros: “Nossa alma não mais ser odiada pelo Vaticano, nós somos Sul Americanos”.

Anjo. A segunda balada do álbum, fala sobre o abuso de poder e da inocência. Uma visão apocalíptica de alguém que através do sofrimento encontrou o renascimento que não tem mais nada a perder – “Eu quero que o mundo morra, para mim tanto faz, por que eu me tornei um Anjo e eu sei que sou capaz'”.

Embaixadores da Carne do Amanhã (e lembranças do passado) tem um vídeo clipe em formato de documentário e de cunho político que nos traz uma visão niilista do mundo em que vivemos. O caos, a discórdia, a dor e a humilhação são todas as formas que encontramos de expressar o amor por nós mesmos e pelo planeta terra. A cada palavra e a cada riff de guitarra podemos sentir uma vértebra de nossos frágeis corpos sendo esmagadas”.

Oblívio é a queda no vazio após toda a destruição vivenciada nas últimas três faixas. É curioso, mas oblívio é uma música obscura que nos leva para as regiões abissais do fundo do mar (ou seria o nosso próprio inconsciente) porém no meio temos uma virada onde essa escuridão se reverte em luz, e temos a letra mais esperançosa do álbum”.

Presença de Espírito. Aqui mais uma vez nos deparamos com Coagula e sua visão de um mundo repleto de seres desprezíveis e a Vingança, o Desprezo e o Masoquismo como os sentimentos mais nobres da raça humana. “Esporra, arranque, fode, morde escalpela e destrói, maltrate as impurezas, me odeie me jogue no chão”. Tudo isso em uma frase só, então vocês podem imaginar…”

Moribunde. Um novo personagem introduzido na história, ele representa o prazer hedonista de se revelar contra o sistema em especial através do abuso de substâncias entorpecentes e ilícitas. A música contém samples do filme Cabo do Medo no momento em que Robert de Niro está tendo um surto psicótico. A paranoia, a psicose e o desprezo pelas autoridades são todos temas que representam a entidade sórdida que é Moribunde”.

Seu Deus (A Lei do Eterno Retorno) é uma crítica a todas as religiões monoteístas recheada de samples de cultos religiosos que beiram o humor negro devido a falta de escrutínio moral com que certos líderes religiosos conduzem a sua máquina de extorsão dos fiéis que não cessam de se multiplicar pelo Brasil”.

Tempo Perdido. Essa música encerra o ciclo das últimas quatro músicas e o título nos remete ao início. Nela temos trechos das músicas Embaixadores da carne do amanhã e Paraíso Perdido nos levando a uma espécie de síntese de tudo o que aconteceu até então e um prelúdio para o fim do álbum que se aproxima”.

Solvente é uma balada psicodélica com guitarra marcante e elementos de música indiana. Essa música fala sobre as cicatrizes deixadas pela vida e a incapacidade de voltarmos a sermos o que já fomos um dia em decorrência das transformações que sofremos. Solvente também é uma metáfora para a dicotomia entre corpo e alma e a visão que temos de nós mesmos em oposição a realidade”.

O Sabbaticus é a última transformação suprema de Coágula. Uma criatura que aparentemente não tem mais nenhuma característica humana, assim como nenhuma emoção. A música é a mais acelerada e pesada de todo o álbum representando essa pulsão selvagem. Entretanto, podemos perceber um paradoxo na melodia do refrão que é doce e repleta de esperança. Porém no fim a conclusão de que o caminho é irreversível: “Sem corpo, sem alma e sem coração, não me restaram olhos para enxergar a emoção”.

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