Repórter Entre Linhas

Bom dia com Poesia

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Um amigo iniciou um projeto muito interessante. “Fiz uma seleção de 30 poemas que gosto muito e decidi compartilhar com vocês”, comunicou ele pelo WhatsApp, meio pelo qual começou a enviar áudios com poemas recitados. As mensagens começaram em 11 de janeiro e, desde então, tem sido um encantamento acordar ouvindo tamanha arte. O dia inicia com felicidade e um sorriso fácil. E a interpretação dele, que além de professor é ator, dá outra vida ao texto. O bom dia com poesia traz o magnetismo das palavras lidas.

Na quinta, ouvi “Matéria de poesia”, de Manoel de Barros. “Todas as coisas que podem ser disputadas no cuspe e à distância, servem para a poesia”, ressoa na voz do meu amigo. “Tudo aquilo que nos leva a coisa nenhuma e que você não pode vender no mercado como, por exemplo, o coração verde dos pássaros, serve para poesia”.

Manoel, e meu amigo, vieram àquele dia me lembrar de perceber o belo nas banalidades e desimportâncias. Manoel me descontrói. Meu amigo me inspira. Eu, que fico a pensar sobre utilidade, sobre o propósito de tudo, não passo incólume ao poema, aos dizeres simples de uma profundidade visceral. E reparo na flor, no lixo, nos fios soltos quebrando a paisagem que não precisa de conserto. Sigo na quinta buscando o ordinário, minha matéria de poesia.

Na sexta, o amigo recitou “Todas as vidas”, de Cora Coralina. “Vive dentro de mim a mulher do povo. Bem proletária. Bem linguaruda, desabusada, sem preconceitos, de casca-grossa, de chinelinha, e filharada”. Fui ao trabalho ouvindo sobre aquelas inúmeras mulheres que habitam em mim, em nós, em todas. A contida, a esperançosa, a algoz, a destemperada, a cheia de planos, a obcecada, e quantas mais podemos encher nosso guarda-roupa, guarda-vidas, guarda-vestes.

“Todas as vidas dentro de mim: Na minha vida – a vida mera das obscuras”, conclui Cora, colocando reticências por dentro. Não dou conta de quantas somos, nessa esquizofrenia harmônica de quem vive recomeços. Cora vem bagunçar as perucas, os acessórios, dizendo que há mais, há muitas, há milhares sem vida escrita e sem prescrição. Somos as mulheres que queremos ser, por ora.

No sábado, escutei o trecho de “O Guardador de Rebanhos” de Alberto Caeiro, um dos heterônimos de Fernando Pessoa. O poema fala sobre o “Menino Jesus verdadeiro”. “Tinha fugido do céu, era nosso demais para fingir de segunda pessoa da Trindade. No céu era tudo falso, tudo em desacordo, com flores e árvores e pedras. No céu tinha que estar sempre sério. E de vez em quando de se tornar outra vez homem”.

Penso sobre o divino que procuramos fora, dentro, nos outros. Nos padrões que projetamos e sobre essa mania de classificar as coisas em gavetas. Uma seriedade chata ao invés da vida com leveza. Mas toda seriedade é chata? Não sei. Parece que a maioria pende para esse viés. Porém, se até o “menino santo” de Caieiro foi atrás do riso, por que nós mortais ainda não superamos a busca por genialidade?

Nessas oitivas do meu amigo, trago sempre à memória a primeira vez que escutei versos lidos. Foi com Bethânia declamando “Todas as cartas de amor são ridículas”, no CD Imitação da Vida (1997). O poema de Álvaro de Campos, outro heterônimo de Pessoa, diz: “As cartas de amor, se há amor, têm de ser ridículas. Mas, afinal, só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor, é que são ridículas”. A inigualável versão de Bethânia deixou rastros.

Ouvir poesia é para mim uma experiência sensorial. Vibra as entranhas, causa arrepios, permite incompreensão. O amigo, que pelas manhãs tem compartilhado os gostos literários comigo, vem me estimulando o encantamento. Desde então, “as coisas que não levam a nada têm grande importância”, como prescreve Manoel de Barros. E a poesia tem sido essa pílula diária para enxergar mais a vida.

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