Repórter Entre Linhas

Coragens

Em abril, um amigo fez aniversário e perguntei a ele o que mais um ano de experiência trazia. “Trouxe mais certeza de que a vida pede coragem”, respondeu por mensagem. Ele, que é leonino de nome, taurino de signo, artista, professor e pesquisador, fala de modo simples sobre coragem. E eu o vejo muito corajoso. Ser artista requer essa capacidade de expor a alma. É intenso.

Sobre as muitas coragens pedidas pela vida e pela gente em distintas épocas, a coragem de ser imperfeito e a de não agradar são umas que rondam minha vida nestes tempos. Também são títulos de livros que ainda não li, mas poesias na vida prática.

A coragem de não agradar tem exigido um extremo desapego do lado de fora e uma profunda consciência interna. Quando a gente cede demais e não se escuta, dói a cabeça, pesa no ombro, endurece o pescoço e fica sempre aquela sensação de bebida passada. Ainda não encontrei o remédio que os saudáveis usam sem medo, o tal botão do “foda-se”. Para mim, essas pessoas se divertem mais.

E a vida tem pedido outras coragens. Correr riscos e buscar os sonhos estão sempre batendo aqui na porta, a despeito da idade. A gente tenta dar um perdido, mas elas se revelam nos detalhes e vêm à mesa quando menos se espera.

O projeto ousado de um amigo e a mudança radical de um conhecido contam deles e também inspiram a chama nossa que ainda arde, por mais que tentemos apagá-la com as águas de “não posso”, “não é para mim”, “é tarde demais”, “agora não”.

A coragem de correr riscos e buscar os sonhos não vem sozinha. Dá passagem para a coragem de errar e a coragem de voltar atrás nas decisões, nas certezas, nas brigas, no que era dado como certo, no que era causa perdida, nos amores idos, nos amores firmes. Pede mobilidade e desconstrução. Ir e voltar sempre que for necessário para viver melhor, no tempo não cronológico das incertezas.

E para atravessar esse turbilhão a vida pede a mais desafiadora das coragens. A que leva ao caminho sem rota, sem planos, sem guias. Uma decisão que custa nada menos do que viver na totalidade e deixar brilhar nossa essência. A coragem de ser você mesmo, sem filtros ou arrependimentos.

Essa é a coragem que leva a outras e mais outras e que faz a roda da vida girar por mais um ciclo a encher o peito de experiências, de coisas não lidas e finitudes renováveis. E a gente vai, ano a ano vai, encurtando distâncias e criando coragem de ser um pouco mais a cada dia feliz.

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