Repórter Entre Linhas

Faixa a faixa | Rubel comenta álbum ‘Casas’, que inclui parcerias com Emicida e Rincon Sapiência

Rubel (Foto: Guido Argel)

O bonito Pearl (2013) foi a porta de entrada de Rubel na música. A partir disso, demorou cinco anos para que o carioca mostrasse ao mundo outro trabalho, mas veio, em março deste ano, o elegante Casas. O disco foi selecionado, em 2016, pelo edital Natura Musical com apoio da Lei Rouanet. A produção é do novíssimo selo Dorileo, produtora de Rubel Brizola.

Com 14 faixas, o sucessor de Pearl traz participações luxuosas de Emicida, na faixa “Mantra”, e Rincon Sapiência, na canção “Chiste”. A primeira é um pedido de proteção a São Jorge, como explica o músico e cineasta. A segunda, um diálogo entre dor e riso com espaço para protesto.

Em entrevista exclusiva ao Blog, Rubel comenta o disco faixa a faixa e fala sobre referências a Jorge Ben, Dr. Dre e a influência do rap.

Capa de ‘Casas’

Faixa a faixa: Casas (2018) – Rubel
Por Rubel

Intro

“Intro é a faixa que abre o “Casas” e que faz a ponte com o disco anterior. A melodia dessa música, tocada pelas cordas, é a mesma que encerra Quadro Verde, a última música do Pearl, tocada por um violão de aço e um bandolim. É como se ela dissesse: vamos dar continuidade à trajetória do Pearl, mas agora vai ser um pouco diferente”.

Colégio

“A canção é meio autobiográfica, meio inventada sobre o que eu vivi e vi na época da escola. Uma tentativa de retratar o período do Ensino Médio, quando a gente está descobrindo quem é e quem quer ser. A letra conta um dia dentro de um colégio, acompanhando momentos marcantes nas vidas de alguns alunos. As cordas costuram a música, dialogando com o tema e a atmosfera da Intro”.

Cachorro

“Cachorro é um desabafo sobre algumas vontades. Cada uma dessas vontades vem acompanhada de duas imagens que ilustram e dão forma a elas: a vontade de que o tempo passe mais devagar, a vontade de se desligar da própria imagem, a vontade de lembrar de um amigo que já se foi, a vontade de se entender e se reinventar através do canto. As imagens que ilustram essas vontades são várias; a que eu acho mais emblemática é divertida é o cachorro molhado, no mar, meio estabanado, mas corajoso e livre, que dá nome à música. O violão que sustenta a música é uma homenagem ao Jorge Ben”.

(Foto: Divulgação)

Pinguim

“Pinguim é sobre várias coisas. Uma delas são as escolhas que têm que ser feitas depois que um relacionamento ou um ciclo terminam: o que levar adiante desse relacionamento e o que deixar para trás. Não dá pra deixar tudo para trás, porque, provavelmente, parte daquilo foi muito bom e gostoso e te formou e vale a pena manter vivo. Mas não dá pra levar tudo adiante, senão seria impossível seguir em frente. É um balanço delicado. Pra mim, essas quatro primeiras faixas estabelecem a atmosfera do disco e trazem uma sensação de apresentação e de boas vindas a quem está escutando: essa é mais ou menos a cara do disco que vocês vão ouvir”.

Casquinha

“Casquinha abre o segundo momento do disco. É um respiro dos beats das três músicas anteriores. Um sambinha simples, só com voz, violão e percussão. Pode ser sobre várias coisas, mas, para mim, é sobre lidar com a superproteção da família e as formas de superproteção de eu mesmo me imponho. Sobre uma tentativa de me libertar das exigências de caber em um molde de excelência e perfeição que às vezes é paralisante. Sobre não ter medo de errar e não ter a obrigação de acertar. Foi a música gravada mais rápido, com a voz gripada, e com menos perfeccionismo. É também, de alguma forma, uma chegada mais firme no Brasil”.

(Foto: Guido Argel)

Batuque

“Uma vinheta de percussão, gravadas na fita (os únicos instrumentos do disco gravados analogicamente). Remete a um ritual de umbanda. Remete também a alguns discos de percussão africanos dos anos 70. Traz um pouco da espiritualidade, de uma conexão com a música africana, e abre os caminhos para Mantra, que é uma espécie de oração”.

Mantra

“Mantra é um pedido de proteção a São Jorge para lembrar das coisas que me são caras, para permanecer firme no que eu acredito que seja meu propósito. Tem a participação especialíssima do Emicida. É, para mim, a música mais bem acabada e bem resolvida do disco. Não me parece uma tentativa de misturar ritmos, mas uma mistura de ritmos concretizada.

Tem um sample de bateria de uma música de soul dos anos 70, as congas da faixa anterior invadindo essa faixa, um baixo acústico, que junto da percussão e da bateria dão uma cara meio A Tribe Called Quest, um Fender Rhodes mais jazzístico, também meio soul, inspirado no disco da Noname, uma guitarra fazendo a linha de “Explosif” do Dr. Dre lá no fundo (que também é sampleado de uma música soul dos anos 70), um sample de uma entrevista do Tim Maia, uma linha de cordas e uma linha de metais que o Bubu pegou de algum solo de algum saxofonista, um violão bem escondido, e tudo isso fez bastante sentido junto.

Talvez porque abençoada pela mão e a espada de São Jorge. Mantra encerra a segunda parte do disco. Essa é a primeira pausa. Até então, todas as músicas emendavam umas nas outras”.

Passagem

“Passagem abre a terceira parte. Tem a mesma melodia de Colégio. É como se o disco recomeçasse, agora no Lado B. É uma vinheta com depoimentos retirados de um curta-metragem que fiz no período da faculdade sobre a forma como os alunos estão sendo educados em colégios particulares no Rio de Janeiro. Os três depoimentos falam sobre sonhos bem distintos com os quais, de uma forma ou de outra, eu me identifico”.

Explodir

“É a única música Voz e Violão do disco. É uma volta à estética do Pearl, mais introspectiva e minimalista. É também sobre muitas coisas, mas, para mim, sobre a consciência de que um relacionamento pode, e provavelmente vai terminar em algum momento, mas que isso não é um bom motivo para deixar de vivê-lo em sua plenitude”.

Sapato

“Essa música era inicialmente uma salsa, virou um pop, e acabou nesse samba meio esquisito. Ela leva mais à risca a proposta formal que eu imaginei no início do disco, muito inspirado pelas narrativas do rap, de contar histórias de uma maneira mais abstrata, solta e menos didática, lançando imagens muito específicas que se associam de diversas formas, não apenas cronologicamente ou tematicamente. É como se fosse um quebra-cabeças, um mosaico, que quem estivesse ouvindo tivesse que juntar para construir e imaginar sua própria narrativa. Ela encerra a terceira parte do disco”.

Chiste

“Chiste abre a quarta e última parte do disco. É um diálogo entre a dor e o riso para ver qual dos sentimentos é mais nobre, mais valoroso. É na verdade, uma competição iniciada pela dor, que, com um espírito de porco liga para o riso, tentando tirar uma onda por ter a capacidade de conseguir fazer as pessoas chorarem. O riso ri da cara da dor, que, na própria egotrip, esqueceu que o riso também faz as pessoas chorarem… de rir”.

Fogueira

“Uma vinheta de cordas que funciona como transição entre Chiste e Partilhar. Inicialmente essa música era um tema para violão. No vídeo de Partilhar do Sofar Sounds, dá para ouvir a versão original no violão, mais simples e mais sem graça”.

Partilhar

“Esse foi o grande desafio do disco. A música mais gravada e regravada e re-regravada. Partilhar já tinha sido lançada antes, com um arranjo mais folk e doce, então tive um trabalho muito grande pra fazê-la soar não como uma versão diferente da original, mas como a própria música original lançada tardiamente. Foi difícil encaixar a canção nesse molde mais R&B, e fazer isso soar orgânico e natural, mas, depois de muito tempo, acredito que funcionou”.

Santana

“Santana é a composição de um amigo, Gustavo Rocha, sobre a infância dele em São Paulo. Gosto da dualidade e da sacanagem que tem nessa frase do refrão. “É fácil ser feliz.” Na verdade não é lá tão fácil ser feliz. Mas é fácil ser feliz. Mas não é fácil ser feliz. E por aí vai”.

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