Repórter Entre Linhas

Oto Gris, lá e de volta outra vez

Oto Gris (Foto: Paola Alfamor)

A conexão Fortaleza-São Paulo, da Oto Gris, ganha uma nova parada neste sábado, 13. A banda formada por cearenses na capital paulista abre os shows do Palco B do Festival MADA, às 19 horas. Formado há três anos por Davi Serrano (voz, guitarra, synth e efeitos), Jonas Gomes (baixo e synth) e Victor Bluhm (bateria e samples), o trio se prepara para lançar novo EP, previsto para novembro.

A Oto Gris acabou de lançar o single “Todos os Seus Sonhos”, produzida por Yury Kalil no projeto Porto Dragão, e prepara o clipe de “Palavras do Teu Corpo”, que estará no novo registro. Outra música recente é “Brilhos Negros”, que ganhou clipe dirigido pelo próprio grupo com participação da também cearense Soledad.

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Produzido por Klaus Sena e Saulo Duarte, o primeiro disco, Avôa (2015), traz faixas que fizeram sucesso no YouTube, como “Práticas de Mergulho-voo”, que conta com 13 mil visualizações. O novo EP terá produção do próprio trio com o engenheiro de Alex Reis, e terá participação de Igor Caracas (percussões e efeitos), João Leão (teclados), Heriberto Porto e Luciana Gifonni (flautas).

Em entrevista exclusiva ao Blog, o vocalista Davi Serrano fala sobre a produção do novo EP, os processos criativos, parcerias e referências que atravessam a trajetória da Oto Gris.

O que vocês já podem adiantar sobre o novo EP?

Davi Serrano: As faixas têm uma conexão mais sutil entre elas, se comparadas ao “Avôa”, em que as músicas dividem um contexto sonoro e temático mais parecido. Dessa vez, cada música pede um momento de atenção específico e decidimos respeitar isso e potencializar criando clipes. O nome da compilação ainda não está 100% definido.

De alguma forma, o período criativo de vocês em Guaramiranga, no ano passado, deságua no EP?

Davi: Fomos para uma casa curtir e experimentar livremente, isso serviu de laboratório. No final, gravamos mais de 8 horas de ideias soltas que foram registradas pelo Klaus Sena e, sinceramente, ainda não conseguimos escutar tudo com calma. O que surgiu lá foram arranjos para as músicas gravadas para o edital do Porto Dragão, “Todos os Seus Sonhos” e “Antes do Disparo”, que serão lançadas ainda este ano com produção de Yuri Kalil e não terão relação com o EP, que foi criado depois que voltamos dessa viagem.

Vocês têm passado por outras experiências criativas como essa?

Davi: Tem rolado bastante. Individualmente, temos conseguido acompanhar outros artistas e isso tem sido incrível. Eu toco guitarra com a Soledad. O Jonas e o Victor acompanham a cantora sergipana Héloa. O Victor também acompanha outros artistas como Daniel Groove, Lara Aufranc, Ilya, e outros. Além disso, o Jonas tem um trabalho como pintor. Estamos sempre envolvidos na pesquisa para criações visuais e musicais do Oto Gris.

O clipe de “Brilhos Negros”, lançado em julho último, é uma crítica à busca da imprensa por manchetes polêmicas. Como foi o processo de criação do clipe e o que motivou a banda a tratar desses assuntos?

Davi: Sim, o clipe também fala da busca da imprensa por sensacionalismo e a guerra por likes, que não é novidade pra ninguém. Considero o clipe uma visão bem humorada da nossa realidade, do fato de sermos músicos “independentes” e estarmos juntos achando espaços da nossa maneira, tentando construir uma carreira que nos agrade primeiramente e sem nos iludirmos com fórmulas para o “sucesso”.

Uma das características da Oto Gris é o apuro visual nos clipes, que é algo que vocês sempre trabalharam. Isso vem da necessidade de dialogar com outras linguagens?

Davi: É importante porque vem com naturalidade, temos muito interesse nisso. A exposição Práticas de Mergulho-vôo (realizada no Salão das Ilusões em janeiro de 2017) foi um movimento pra comemorar aniversário de lançamento do nosso primeiro álbum e trouxe aprendizados valiosos. Mas a verdade é que, no dia a dia, está tudo junto e misturado nas nossas vivências, estaremos sempre exercitando esses cruzamentos.

Esse trabalho visual me lembra um pouco o expressionismo alemão e me remete ao filme “The Abominable Dr. Phibes”, de Robert Fuest. Quais são as referências do clipe?

Davi: Total, queríamos que fosse um pouco atemporal. Man Ray, Mary Reid Kelley + Patrick Kelley, Salvador Dalí, Linder Sterling, Magritte e o filme francês “La Jetée” são algumas referências mais diretas para este clipe. Mas eu diria que também tem um pezinho ali em programas no estilo “Choque de Cultura”, pelo humor e pela dinâmica de montagem.

São três anos desde “Avôa”. O que mudou nesse período?

Davi: Mudou quase tudo, viu? Tínhamos pouca noção de como funcionava todo o trabalho além da música. Em três anos, fizemos parcerias importantes (Klaus Haus Severo, Favorite Produções, entre outros), aprendemos muito com os profissionais ao nosso redor e estamos entendendo melhor como funcionam os fluxos e mecanismos do mercado musical. Ou seja, estamos conseguindo nos gravar e publicar com mais agilidade e autonomia.

Oto Gris (Foto: Paola Alfamor)

Vocês foram para São Paulo em momentos diferentes quando ainda estavam em outras bandas. Como foi esse período até a formação da Oto Gris?

Davi: O Jonas já estava aqui estudando artes visuais, então foi super importante para ele vir, para o trabalho do Oto Gris que veio depois. O mesmo com o Victor, que veio junto com a Fóssil, uma banda muito madura e coesa, e que tocava bastante. A combinação final rolou em um encontro em Fortaleza antes mesmos de eu vir. Assim que cheguei começamos a ensaiar na casa do Eric Barbosa (Fóssil, Ode ao Mar Atlântico).

De que forma a estadia em São Paulo influenciou na decisão de montar a Oto Gris e na personalidade da banda?

Davi: No início, não influenciou de forma nenhuma. Porque a ideia de montar o grupo nasceu logo antes. O que São Paulo fez com a gente foi nos transformar radicalmente em vários sentidos, inclusive vem acelerando nossa profissionalização pela quantidade de artistas e produtores de vários lugares e cenas se movimentando e fazendo trabalhos lindos. Você acaba aprendendo e absorvendo coisas legais.

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Olhando para trás, como vocês avaliam essa decisão?

Davi: Essencial. Sem São Paulo não seria possível existir o Oto Gris.

Para vocês, ainda é preciso ir embora de Fortaleza para se dedicar à música como business?

Davi: Essa é uma pergunta que nos fazem com frequência. Temos pensado que não e cada vez menos, mas é preciso rodar e dar as caras, mostrar o que está sendo produzido, sair mesmo que pontualmente, como alguns têm feito. Na nossa pequena trajetória foi imensamente importante termos mudado de Fortaleza nos nossos momentos, até para transformar e renovar nossa relação com a cidade em vários níveis. Foi saudável ter a perspectiva de fora.

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