Sincronicidade

O papel de Maria na cultura ocidental

109421Em virtude do papel que desempenhou na cultura nos últimos vinte séculos, a Virgem Maria, mais que qualquer outra mulher da história ocidental, foi tema de reflexões e discussões a respeito do que significa ser mulher. Em um desenvolvimento desse tema, tão amplo que muitos preferiram ignorar, as explicações sobre Maria ou o modo como foi representada na literatura e na pintura nos revelam muito de como a figura feminina tem sido encarada.

Jaroslav Pelikan

[Pelikan, Jaroslav. Maria através dos séculos: seu papel na história da cultura. Tradução Vera Camargo Guarnieri. – São Paulo: Companhia das Letras, 2000, p. 296]

No primeiro parágrafo do texto introdutório ao livro Maria através dos séculos: seu papel na história da cultura, o autor faz uma afirmação que resume a tese que será defendida ao longo dos dezesseis capítulos seguintes: A segunda sentença da Introdução de Jesus através dos séculos, volume que forma um conjunto com este livro, propunha a seguinte questão: Se fosse possível, com uma espécie de superímã, retirar dessa história [de quase vinte séculos] todos os fragmentos de metal que trouxessem ao menos um vestígio do seu nome, quanto restaria? A mesma questão pode muito bem aplicar-se a Maria (p. 15).

De fato, a história da cultura ocidental não seria a mesma sem Maria. Especialmente a pintura deve-lhe muito em inspiração, e uma prova disso é o vasto material iconográfico, tanto colorido quanto em preto e branco, que ilustra o livro de Pelikan. Tal iconografia cobre desde os primeiros séculos do cristianismo, como uma representação da anunciação em uma catacumba romana do século IV, até a contemporaneidade, com Marc Chagal e Salvador Dali.

Um aspecto que merece especial atenção por parte do autor ao tratar da importância fundamental da figura de Maria para a cultura ocidental é a perspectiva assumida pela Reforma de Lutero e seus posteriores desdobramentos. Os reformadores protestantes, escreve Pelikan, argumentavam que, assim como críticas a respeito do que consideravam mágica sacramentária medieval haviam restaurado e elevado a Ceia do Senhor à sua verdadeira posição de instituição divina, deixar de atribuir a Maria as falsas glórias com que fora sobrecarregada na Idade Média representaria, de fato, uma liberação que permitiria que ela pudesse ser considerada como o supremo modelo de fé na palavra de Deus (p. 207).

Já afirmei em outra ocasião, neste blog, que Maria é um tema inesgotável de reflexões. Foi por esse motivo que englobei os textos postados aos sábados num conjunto intitulado De Maria nunquam satis, expressão latina bastante citada pelos mariologistas e que quer dizer de Maria nunca o suficiente. Essa opinião é também partilhada por Pelikan, que no capítulo conclusivo da obra aqui comentada, afirma: As referências explícitas do Novo testamento a Maria, mãe de Jesus, são poucas e breves. Mesmo quando, tipológica ou alegoricamente, várias afirmações do Velho Testamento foram interpretadas como concernentes a ela, o pensamento cristão (praticamente desde os primeiros tempos) passou a se concentrar sobre seus significados mais profundos e suas potenciais implicações. Os métodos de meditação eram muitos e variados, mas, no fundo, constituíam-se em um esforço para encontrar e expressar sua posição no interior da mensagem bíblica. Com relação a outra pessoa meramente humana, nenhum profeta, apóstolo ou santo mereceu nem uma pequena parcela sequer da atenção concedida à Santa Virgem Maria (p. 299).