Sincronicidade

O enigma Frida Kahlo

frida-1Ler o diário de Frida Kahlo é sem dúvida um ato de transgressão, um empreendimento com notável toque de voyerismo. O diário é uma expressão profundamente pessoal de seus sentimentos, e ela jamais o escreveu pensando em publicá-lo. O diário de Kahlo pertence, desse modo, ao ramo do diário íntimo, um registro pessoal que certa mulher escreveu só para si mesma.

Sarah M. Lowe

[ Kahlo, Frida. O diário de Frida Kahlo: um auto-retrato íntimo. Introdução Carlos Fuentes; comentários Sarah M. Lowe; tradução Mário Pontes. – 2ª. ed. – Rio de Janeiro: José Olympio, 1996, p. 25]

O escritor mexicano Carlos Fuentes começa a Introdução que escreveu para o Diário de Frida Kahlo com as seguintes palavras: Vi Frida Kahlo apenas uma vez. E antes, eu a ouvi. Eu estava em um concerto no Palácio das Belas-artes, no centro da Cidade do México, um prédio iniciado em 1905, no governo do velho ditador Porfirio Díaz, e bem de acordo com os gostos da elite mexicana na virada do século. Depois de descrever alguns detalhes do prédio que abrigava o teatro, prossegue Fuentes: Menciono tudo isso só para dizer que quando Kahlo entrou em seu camarote no segundo nível do teatro, toda aquela magnificência e todas aquelas coisas que nos distraíam como que desapareceram. O tilintar daquela suntuosidade de jóias abafou os sons da orquestra, porém algo mais do que um simples ruído forçou-nos a olhar para cima, e assim descobrir a figura que se anunciava com incrível vibração de ritmos metálicos, porém distinguindo-se não só pelo ruído das jóias, mas igualmente pelo magnetismo do seu silêncio (p. 7).

Feita essa apresentação inicial através da entrada triunfal no teatro, o escritor passa a recorrer a figuras míticas da tradição mexicana para descrever Frida: Foi a entrada de uma deusa asteca, talvez Coatlicue, a deusa mãe vestida com sua saia de serpentes, exibindo as mãos feridas e sangrentas do mesmo modo que as outras mulheres exibem um broche. Ou talvez fosse Tlazolteotl, a divindade da pureza e da impureza do panteão indígena, o abutre feminino que devora as sujeiras para manter o universo limpo. Ou, quem sabe, víamos a Mãe Terra Espanhola, a Dama de Elche, enraizada no solo pelo peso do seu elmo de pedra, seus brincos tão grandes quanto rodas de carros, os peitorais devorando-lhe os seios, os anéis transformando suas mãos em tenazes (p. 7).

Magdalena Carmen Frida Kahlo y Calderón nasceu no dia 6 de julho de 1907 em Coyoacán, na Cidade do México. Em 1914 sofre de poliomielite. Em 1922, na escola onde estuda, conhece Diego Rivera, que lá estivera pintando um mural. Em 1925 estuda pintura com o pintor comercial Fernando Fernández, amigo de seu pai. No mesmo ano, em 17 de setembro, ao retornar da escola sofre um acidente de trânsito no qual quebra a bacia e a coluna dorsal, além de graves ferimentos. Começa a pintar durante a convalescença. Em 1929 se casa com Diego Rivera. O casamento durará cinco anos, ocorrendo a separação em 1934. A relação dos dois passará por vários reveses a partir de então, numa sucessão de reencontros e rompimentos. Também em 1934 Frida sofre um aborto, submetendo-se, ainda, a duas cirurgias: uma no pé e outra para retirar o apêndice. Ao longo da vida, a pintora será submetida a mais de 35 cirurgias, numa das quais teve amputada a perna direita. Faleceu no dia 13 de julho de 1954.

Em 1944 a pintora Frida Kahlo, uma das maiores representantes da arte contemporânea, iniciou um diário que continuaria pelos dez anos seguintes, até sua morte. Em 1996 a José Olympio Editora brindou o leitor brasileiro com uma edição primorosa do Diário de Frida Kahlo, com capa dura recoberta por tecido, além de uma sobrecapa que reproduz duas pinturas da autora.  A edição apresenta, ainda, uma reprodução fac-similar de todos os textos, pinturas e rabiscos que compõem o diário original. Ao longo de suas páginas o leitor tem oportunidade de confrontar a enigmática figura da pintora mexicana. A edição conta, ainda, com uma apresentação do escritor Carlos Fuentes e comentários de Sarah M. Lowe, grande conhecedora da obra da pintora.

Certa vez Frida Kahlo fez uma confissão que, a partir de então, seria muitas vezes citada: Jamais pintei sonhos. Pintei minha própria realidade (p. 287). É com essa realidade que o leitor do Diário se depara a cada página, sendo-lhe sempre proposto um novo enigma nem sempre de fácil decifração. Numa das páginas, em torno de uma mancha que mistura o verde com o negro, escreve: mundos cobertos de tinta – terra livre e minha. sóis distantes que me chamam porque faço parte de seus núcleos. Tolices. O que eu poderia fazer sem o absurdo e o efêmero? 1953 há muitos anos compreendo o materialismo dialético (p. 227).

A propósito da primeira página do Diário, comenta Sarah M. Lowe: A primeira página é um prelúdio ao diário e ao mundo surreal das páginas seguintes. Pintado 1916, Kahlo anuncia em vermelho vivíssimo o ano em que ela fazia nove anos, uma mentira declarada com a qual proclama a sua falta de compromisso com os fatos racionais. Acentuando o sentimento de irrealidade, a esquisita colagem de Kahlo combina uma ilustração sentimental – composta por uma coroa de flores, uma fita cor-de-rosa e um pássaro – e um estranho retrato fotográfico dela mesma, feito provavelmente pela sua amiga Lola Alvarez Bravo. O efeito é dissonante e provocativo, mas trata-se de uma brincadeira pessoal, que o observador não é autorizado a compreender inteiramente (p. 202).

Concluída a leitura dos textos e a apreciação das pinturas disseminadas ao longo do Diário, resta a inevitável conclusão de que, por mais que tente, jamais alguém conseguirá desvendar em profundidade o enigma Frida Kahlo.