Sincronicidade

Os 100 gênios literários de Harold Bloom

BLOOMDividi a centena de gênios da linguagem aqui relacionados em dez conjuntos, cada qual contendo dez nomes; em seguida, dividi cada conjunto em subconjuntos de cinco nomes. Todo gênio, a meu ver, é idiossincrático, extremamente arbitrário e, em última instância, solitário. Qualquer contemporâneo de Dante poderia compartilhar da relação que o poeta teve com a tradição, mas somente Dante escreveu a Comédia. Cada um dos 100 autores por mim selecionados é singular, mas, tanto quanto qualquer outro livro, este requer algum princípio de organização ou classificação. Estruturei-o como um mosaico, por acreditar no surgimento de contrastes e inspirações importantes.

Harold Bloom

[Bloom, Harold. Gênio: Os 100 autores mais criativos da história da literatura. Tradução de José Roberto O’Shea; Revisão de Marta M. O’Shea. Rio de Janeiro: Objetiva, 2003,  p. 13.]

No prefácio ao livro Gênio: Os 100 autores mais criativos da história da literatura, o autor, Harold Bloom, indaga: “Por que estes 100 autores?”, e, logo a seguir, responde: “A certa altura, considerei incluir muitos outros nomes, mas uma centena me pareceu número suficiente. Excetuando aqueles que jamais poderiam ser omitidos – Shakespeare, Dante, Cervantes, Homero, Virgílio, Platão e companheiros -, minha seleção é totalmente arbitrária e idiossincrática. A lista não encerra, em absoluto, os 100 melhores, na avaliação de quem quer que seja, inclusive na minha. Apenas estes autores são aqueles sobre os quais desejei escrever” (p. 11).

De fato, qualquer seleção será sempre arbitrária, uma vez que revela, mais que qualquer coisa, as preferências de quem organizou a lista. Em se tratando, porém, de um autor como Harold Bloom, vale a pena investir algum tempo na leitura das 828 páginas ao longo das quais desfilam os 100 autores por ele considerados grandes gênios da literatura. Homem de vasta cultura, Harold Bloom é, antes de tudo, um leitor incansável, grande conhecedor da literatura ocidental.

Bloom encontrou uma forma original para classificar os autores por ele eleitos como os melhores. Valendo-se dos Sefirot da Cabala, os dividiu em dez grupos, cada um dos quais, por sua vez, é dividido em dois lustros, ou

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seja, subgrupos de cinco autores. Uma vez que a cada Sefirot é atribuído determinado atributo, presume-se que os autores incluídos em cada subgrupo guardem alguma relação com as peculiaridades do respectivo Sefirot.

Na seleção de Bloom figura um escritor brasileiro, incluído no IX Sefirah, Yesod. No primeiro lustro encontram-se: Gustave Flaubert, José Maria Eça de Queirós, Joaquim Maria Machado de Assis, Jorge Luis Borges e Italo Calvino. No segundo, foram incluídos: William Blake, D. H. Lawrence, Tennessee Williams, Rainer Maria Rilke, Eugenio Montale. A propósito do IX Sefirah, Yesod, afirma o autor: 

Yesod, traduzido, livremente, como fundação, encerra dois significados afins: o impulso sexual masculino e o mistério do equilíbrio entre o feminino e o masculino, nos processos naturais. No primeiro lustro, Yesod, agrupei cinco mestres da ficção que, a exemplo de outros anteriormente arrolados, podem ser considerados ironistas trágicos, iniciando com Falubert, o artista dos artistas, especialmente em Madame Bovary. Eça de Queirós, o maior romancista português do século XIX, e Machado de Assis, o romancista negro brasileiro, contemporâneo de Eça, estenderam a ironia de Flaubert em fantasias satíricas que refletiam os seus respectivos dilemas nacionais” (p. 667).

Curioso notar como Bloom torna saliente a negritude de Machado, característica que, conforme alguns biógrafos e críticos, o escritor brasileiro renegava. O autor escolhe para análise do Bruxo do Cosme Velho – em quem vê um discípulo do escritor irlandês Laurence Stirne (1713-1768) -, sua obra máxima, Memórias Póstumas de Brás Cubas, sobre a qual afirma:

“Brás Cubas, em suas Memórias Póstumas, recebe um bilhete da amante casada, sugerindo que talvez o marido desta tenha descoberto a verdade, e o herói se põe a refletir sobre a falta de uma reação coerente da sua parte. Machado de Assis, o maior discípulo de Laurence Sterne no Novo Mundo, escreve a sua obra-prima em 1880, em um contexto do Brasil escravagista, ele próprio neto de escravos libertados. Porém, Machado, ironista genial, jamais ataca a sociedade diretamente, mas através de uma comédia astuta e um niilismo intimidante. A alienação de Brás Cubas é esplêndida, sua amabilidade, maravilhosa: ele jamais sofre e, por conseguinte, jamais sofremos com ele. Todavia, uma frieza misteriosa emana das suas Memórias Póstumas, obra que contém atmosfera tão original que não permite comparação com qualquer outro texto ficcional, a despeito do débito inicial com Sterne”. E completa, mais uma vez salientando a ascendência negra do escritor brasileiro: “O gênio da ironia propiciou-nos poucos exemplos à altura do escritor afro-brasileiro Machado de Assis, a meu ver, o maior literato negro surgido até o presente. Machado de Assis teria desprezado a minha observação, como mais uma piada digna de Tristram Shandy” (p. 687).         

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Harold Bloom é professor e crítico literário estadunidense, nascido em New York a 11 de julho de 1930. Publicou vários livros, entre os quais eu destacaria, também, O Cânone Ocidental.