Sincronicidade

Santa Teresa d’Ávila e o abandono em Deus

Depositei a minha confiança na grande bondade do Senhor, que nunca deixa de ajudar a quem se determina, por Ele, a abandonar tudo.

Santa Teresa de Jesus

[Teresa de Jesus. Obras Completas. Texto estabelecido por Fr. Tomas Alvarez, O.C.D. Direção Pe. Gabriel C. Galache, SJ. Tradução de Adail Ubirajara Sobral e outros. – São Paulo: Edições Carmelitanas: Edições Loyola, 1995, Caminho de Perfeição, cap. 1, p. 302].

A espiritualidade carmelita tem sido para mim há mais de vinte anos uma grande fonte de inspiração. A descoberta dessa espiritualidade começou com a leitura das Obras Completas de São João da Cruz. A essa leitura, se seguiu a das Obras Completas de Santa Teresa de Jesus e, por fim, das Obras Completas de Santa Teresinha do Menino de Jesus. No momento, tenho enfileirados na prateleira da estante os cinco volumes das Obras Completas de uma outra santa carmelita, Santa Tereza Benedicta de La Cruz, ou, como é mais conhecida, Edith Stein. Estas, porém, terão que esperar um pouco para que as leia, uma vez que a edição é em língua espanhola e terei que, primeiro, aprender o idioma.

Embora goste imensamente de todos estes mestres da mística cristã, sempre me senti especialmente próximo de Santa Teresa d’Ávila. Santa Teresa tem uma forma de escrever, um estilo, que me encantam e me fazem sentir muito próximo dela. Alguns de seus escritos, como o Livro da Vida e o Castelo Interior, li mais de uma vez. Sou tomado por tanto entusiasmo ao falar dessa mística espanhola que, certa vez, ao terminar uma aula da disciplina de História das Religiões, ouvi de uma aluna a seguinte observação: “Vasco, acho que a cada semestre, no final desta cadeira, tu conquistaste pelo menos mais um devoto para Santa Teresa”. O fato é que, em se tratando de Santa Teresa, o que me move não é um mero interesse, mas uma autêntica e avassaladora paixão.

Santa Teresa d'Ávila

Santa Teresa d’Ávila

Santa Teresa d’Ávila ainda é pouco conhecida no Brasil. Muitas vezes tem me acontecido observar que, ao me referir a ela, as pessoas logo a identificam com Santa Teresinha do Menino Jesus, esta sim, muito conhecida e muito reverenciada no país. São, porém duas pessoas diversas e quase quatro séculos as separam, sendo que a segunda era devota da primeira. Santa Teresa de Jesus nasceu na cidade de Ávila (por isso é também conhecida como Santa Teresa d’Ávila), na Espanha, em 1515, e faleceu em Alba de Tormes, nesse mesmo país, em 1582.

Santa Teresinha do Menino Jesus

Santa Teresinha do Menino Jesus

Santa Teresinha do Menino Jesus (ou  Santa Teresinha do Menino Jesus e da Sagrada Face), por sua vez, nasceu em Alençon, na França, em 1873 e faleceu em Lisieux, em 1897 (daí o fato de ser também conhecida por Santa Teresinha de Lisieux).

Entre vários aspectos da vida de Santa Teresa que eu poderia destacar aqui, salientaria, especialmente, sua capacidade de total entrega a Deus, cônscia de que, para quem assim procede, não há perigo de errar, pois o caminho é seguro. É o caminho da fé, caminho este que a poucos é dado experimentar integralmente, posto que seja demandada uma grande capacidade de entrega sem reservas ou meias-medidas.

No livro Caminho de Perfeição, dirigindo-se às suas condiscípulas, escreve Santa Teresa d’Ávila, não sem certa ironia, característica muito peculiar aos seus textos: “Não digo que deixemos de esforçar-nos por alcançar a contemplação. Afirmo que em tudo deveis exercitar-vos, visto não estar em vossas mãos, mas nas do Senhor, o escolher; mas, se depois de muitos anos Ele quiser dar a cada qual o seu ofício, bela humildade seria a vossa se desejásseis escolher por vós mesmas. Dai toda a liberdade de ação ao Senhor da casa, que é sábio e poderoso, compreendendo o que convém para vós, bem como o que Lhe é conveniente” (p. 349).