Sincronicidade

Budismo: na encruzilhada entre psicologia e religião

 

 

 

Roda da Vida - Mandala Tibetana

Roda da Vida – Mandala Tibetana

A característica mais importante de todos os ensinamentos de Buda está no fato de serem destinados às necessidades e aptidões de cada indivíduo. Dado que todos nós temos interesses, problemas e modos de vida diferentes, nenhum método de instrução poderá ter a mesma utilidade para todos. Buda explicou que, para atingir um discípulo em especial, vindo de determinado ambiente, ensinava uma lição específica. Por isso, houve ocasiões em que foi necessário dizer “sim” e outras em que foi mais apropriado dizer “não” ao responder à mesma questão. Assim, sendo o Budismo flexível e não apresentando características rígidas e dogmáticas, sinto muitas vezes que se trata mais de um sistema psicológico do que de uma religião. Não quero dizer com isso que o Budismo não tenha algum aspecto religioso. O que quero dizer é que o Budismo requer um inteligente exame de seus ensinamentos, de preferência a uma cega aceitação. Essa ênfase dada à experiência e à investigação pessoais torna-o único entre os sistemas religiosos de pensamento.

 

Lama Thubten Yeshe

[Yeshe, Lama Thubten e outros. Ensinamentos do Budismo Tibetano. Tradução Humberto Arcanjo Brito Rodrigues. – São Paulo: Pensamento, 1995. Texto: Girando a Roda, p. 37-38].

Já escrevi em outro texto neste blog que o Budismo é um sistema psicológico altamente sofisticado. Ele visa, sobretudo, o aprimoramento do indivíduo, com um detalhamento preciso de técnicas voltadas para este objetivo. Por esse motivo, defendo a tese de que, sob diversos aspectos, é possível abstrair o substrato religioso e aplicar alguns ensinamentos budistas como estratégia de autodesenvolvimento. Devo salientar, no entanto, que o faço com alguma reserva, uma vez que, ao contrário do que advogam alguns autores, também defendo o ponto de vista de que o Budismo é uma religião.

Ao assumir tais posicionamentos alguns leitores poderão argumentar que incorro em contradição. Devo advertir que, de forma alguma, defender um e outro pontos de vista redunda em contradição. O que quero dizer é que diversos aspectos do ritual budista, quais sejam, aqueles que são executados com objetivos eminentemente religiosos, podem ser perfeitamente desconsiderados e, ainda assim, se fazer uso de algumas técnicas budistas – como, por exemplo, parte das técnicas de meditação – com grande proveito para o autoaprimoramento.

Evidentemente, quem buscar o Budismo imbuído desse propósito, não poderá querer tirar cem por cento de proveito de tudo o que ele pode oferecer. Isso porque, sob alguns aspectos, inclusive com relação a certas técnicas de meditação, o elemento religioso não poderá ser descurado. O que afirmo se aplica especialmente ao Budismo Tântrico ou Vajrayana, onde temos, seguramente, a forma mais ritualista dessa religião. Coincidentemente, é também no tantrismo que se encontram as técnicas mais elaboradas de meditação. Nenhuma escola do Budismo penetrou com tanta profundidade nos meandros da natureza humana quanto o Tantra. Creio que isso deva ser creditado às peculiaridades da sociedade onde ele fincou raízes e se desenvolveu, o Tibete.