Sincronicidade

As impagáveis tiradas humorísticas e filosóficas de Carlos Moraes

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Agora deus vai te pegarConfesso que sempre tive dificuldade com essa possível interferência de Deus nos destinos dos homens, com o cruel silêncio dos céus em relação ao labirinto de causas e efeitos deste mundo. Tento me consolar pensando que talvez seja melhor assim. Melhor que as religiões não passem de meras frestas para o Grande Mistério. Assim vi as muitas crenças ontem à noite: simples frestas para o Grande Mistério. Porque logo que uma delas se julga porta escancarada, com que arrogância e frieza começa a definir quem entra e quem não entra. E, não raro, a matar os que julga indignos. Assim que obrigado, Senhor, por Teu silêncio relativo, pelas frestas que de Ti nos concedes na Tua grande e vívida noite.

Carlos Moraes 

[Moraes, Carlos. Agora Deus vai te pegar lá fora: anotações de um padre preso numa cidade sem zoológico. Rio de Janeiro: Record, 2004, p. 132.]

“Ah se eu tivesse que ter pena de mim mesmo ia ser agora. Estou completamente nu, estendido na cama de um quartel de cavalaria e, como se fosse pouco, a cada cinco minutos um sargentinho carioca bate na porta e pergunta: e aí, garoto? Gentil, ele quer ter a certeza de que eu ainda não me suicidei” (p. 7). Com essas palavras, o escritor gaúcho Carlos Moraes abre o livro Agora Deus vai te pegar lá fora: anotações de um padre preso numa cidade sem zoológico. Quando soube da publicação deste livro, lancei-me numa ansiosa busca por um exemplar nas livrarias de Fortaleza. Uma vez adquirido, no mesmo dia iniciei a leitura. Quando comecei a sublinhar trechos, como faço habitualmente, concluí logo que o livro mereceria uma releitura. Decidi que prosseguiria sem nada sublinhar, deixando para fazê-lo por ocasião da releitura.

Em 2002, estando em uma livraria, me deparei com um livro cujo título despertou minha curiosidade: Como ser feliz sem dar certo – e outras histórias de salvação pela bobagem. O título era tão peculiar que, só por isso, merecia ser adquirido. Logo mais eu descobria que havia feito uma excelente aquisição: foi um das melhores leituras que já fiz, e inúmeras vezes tenho voltado às suas páginas.

Pois bem, desde então, fiquei na ansiosa espera que outros livros do autor viessem a lume. Dois anos depois era publicado Agora Deus vai te pegar lá fora: anotações de um padre preso numa cidade sem zoológico. A exemplo do anterior, este também tem um título bastante singular. Li-o com imenso prazer. Carlos Moraes tem uma forma de humor peculiaríssima, que tanto faz rir quanto pensar. Divirto-me imensamente com a leitura dos seus textos. Mas também retorno a eles com frequência porque muitas de suas tiradas humorísticas são matéria para sérias reflexões sobre a vida.     

Gaúcho de Lavras do Sul, Carlos Moraes, ordenado em 1966, trabalhou como

Carlos Moraes

Carlos Moraes

padre na diocese de Bagé. Durante o governo Médici, foi julgado e preso com base na Lei de Segurança Nacional. Depois de deixar o sacerdócio, já em São Paulo dedicou-se ao jornalismo, trabalhando nas revistas Realidade, Psicologia Atual e Ícaro. Em 1981 foi agraciado com o Prêmio Jabuti com o livro infanto-juvenil A vingança do timão.  

Em Agora deus vai te pegar lá fora o autor mistura ficção e realidade. Eu gostaria de ter a capacidade necessária para falar aqui do valor deste livro, mas, infelizmente, me faltam tanto as palavras quanto o talento para a crítica. Dizer que algumas passagens do livro são antológicas, por exemplo, é muito pouco. Mas antológico é, de fato, o qualificativo que pode ser aplicado a alguns textos, dentre os quais eu citaria o episódio do presépio vivo, em que um autêntico ritual totêmico é celebrado. A conclusão dada ao texto é perfeita.

Um dos temas que perpassa o livro de ponta a ponta é o futebol, uma das grandes paixões do autor. Aliás, ele diz que, ao ser preso, causou estranheza aos demais presidiários e policiais ao adentrar o presídio tendo em uma das mãos a Bíblia e, na outra, uma bola. Essa paixão o leva a concluir: “Às vezes me pergunto se, ao me rever, não falo mais de futebol que de Deus. Me desculpo achando que a história de todo menino brasileiro é, em campo ou em sonho, uma história de futebol. Mesmo assim acho uma imaturidade isso de sacudir a minha vida e só cair bola, drible, passe, pênalti, córner, futebol. Bem que, às vezes, Deus cai junto, participa, entra em campo e diria até que ao meu lado combateu contra certos adversários. Pelo menos em duas ocasiões isso claramente aconteceu” (p. 249).