Sincronicidade

A aposta de Pascal na religião

 

Blaise Pascal (

Blaise Pascal (1623-1662)

Se não se devesse fazer nada senão pelo certo, nada se deveria fazer pela religião: pois ela não é certa. Mas quantas coisas são feitas pelo incerto, as viagens marítimas, as batalhas! Digo, pois, que não se deveria fazer absolutamente nada, pois nada é certo; e que há mais certeza na religião do que na possibilidade de vermos o dia de amanhã: pois não é certo que veremos o dia de amanhã, mas é bem possível que não o vejamos. O mesmo não se pode dizer da religião. Não é certo que seja verdadeira; mas quem ousará dizer que é certamente possível que não o seja? Ora, quando se trabalha pelo dia de amanhã, isto é, pelo incerto, procede-se judiciosamente: pois, de acordo com a regra das probabilidades que ficou demonstrada, é necessário trabalhar pelo incerto.

 

 

Santo Agostinho viu que se trabalha pelo incerto no mar, numa batalha etc.; mas não conheceu a regra das probabilidades, que demonstra que assim se deve fazer. Montaigne viu que os homens se ofendem diante de um espírito coxo e que o costume é todo-poderoso; mas não viu a razão desse efeito.

Todas essas pessoas viram os efeitos, mas não as causas; em confronto com os que descobriram as causas, são como aqueles que só têm olhos em comparação com os que possuem o espírito; porque os efeitos são por assim dizer sensíveis, e as causas só são perceptíveis para o espírito. E, embora os efeitos desta sorte sejam também vistos pelo espírito, em confronto com o espírito que vê as causas, esse espírito é como os sentidos corporais em confronto com o espírito.

Blaise Pascal

[Pascal, Blaise. Pensamentos. Tradução de Pietro Nassetti. – São Paulo: Martin Claret, 2003, silogismo 212 (234), p. 139.] 

Ouvi falar de pascal pela primeira vez quando, ainda na faculdade, um colega de curso, o José Marcos de Castro, indagou, durante uma conversa em que falávamos de filosofia: “Vasco, você já leu Pascal?” ante minha resposta negativa, ele completou, tomado por grande entusiasmo: “Você precisa ler Pascal. Tem aquela frase dele, muito citada, ‘O coração tem razões que a própria razão desconhece’, mas há coisas muito mais profundas. Você precisa ler os Pensamentos”. Guardei comigo a sugestão. Eu esperaria ainda muitos anos até que tivesse a oportunidade de mergulhar nos aforismos pascalinos. Nele eu encontraria idéias que fariam eco a muitas das minhas dúvidas e inquietações, especialmente no que tange àquela que, segundo Pascal, constitui a questão mais importante de que deveria se ocupar qualquer pessoa: o sentido da vida, que, por sua vez, remete a dois outros inevitáveis enigmas, a existência de Deus e a imortalidade da alma.

Blaise Pascal (Clermont-Ferrand, 1623-Paris, 1662) foi físico, matemático, teólogo e filósofo. Apesar de ter vivido apenas 39 anos, deu grandes contribuições à física e à matemática, mas não me deterei aqui nestes aspectos de sua obra, pois me importa mais falar dele como teólogo. Pascal conta-se entre estes raros indivíduos que fizeram da busca de Deus uma questão constelar de sua vida, ou seja, tudo o mais girava em torno dela. Não lhe era suficiente acreditar por acreditar, ou seja, professar uma religião calcada numa fé morna e insípida comum àqueles que, por comodismo, rejeitam a dúvida e as questões com as quais ela, a fé, se levada às últimas consequências, inevitavelmente confrontará o sujeito.

Daí por que afirmará, com propriedade e conhecimento de causa: “Só posso sentir compaixão pelos que gemem sinceramente, dilacerados por essa dúvida que consideram como a última das infelicidades e, não se poupando a nenhum esforço para livrar-se dela, fazem dessa busca a sua principal e mais séria ocupação” (silogismo 174 (194), p. 118).