Sincronicidade

O dogma da Assunção de Maria

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O dogma sobre a assunção foi particularmente objeto de uma séria preparação para uma consulta da Igreja universal, que chegou ao reconhecimento da evidência da fé, ao povo cristão. O que pode parecer mais audacioso, na promulgação que Pio XII fez sobre a assunção, a 1º de novembro de 1950, é a ausência de todo fundamento escriturístico “direto”. Os teólogos protestantes reagiram assaz vivamente diante dessa situação, agravando o clima de desconfiança com relação às antigas noções de deusa guia.

Jean-Claude Michel

[Michel, Jean-Claude. Assunção de Maria, um êxtase de amor. Tradução de José Joaquim Sobral. – São Paulo: Editora Ave-Maria, 2005, p. 7. – (Série Virgem Maria; 4)]

Durante a realização do Concílio Vaticano I (8.12.1869-18.12.1870), 204 padres conciliares haviam proposto a definição da Assunção de Maria ao céu. Ao longo da primeira metade do século XX moções neste sentido foram intensificadas junto à Santa Sé. Finalmente, após a realização de uma consulta junto ao episcopado do mundo inteiro, no dia 1º de novembro de 1950, dia de Todos os Santos, o papa Pio XII proclamava, com as seguintes palavras, o dogma da Assunção de Maria:

“Deste modo, a augusta Mãe de Deus, associada a Jesus Cristo de modo insondável desde toda a eternidade ´com um único e mesmo decreto´ de predestinação, imaculada na sua conceição, na sua maternidade divina virgem integérrima, generosa companheira do divino Redentor que obteve pleno triunfo sobre o pecado e suas consequências, alcançou por fim, como suprema coroa dos seus privilégios, que fosse preservada imune da corrupção do sepulcro, e que, como já seu divino Filho, vencida a morte, fosse levada em corpo e alma à glória suprema do céu, onde refulgisse como Rainha à direita do seu Filho, Rei imortal dos séculos [cf. 1Tm 1,17]. … Por isso, … para a glória do Deus onipotente, que prodigou sua peculiar benevolência à Virgem Maria, para a honra do seu Filho, Rei imortal dos séculos e vencedor do pecado e da morte, para incremento da glória da sua augusta mãe, e para gáudio e exultação de toda a Igreja, com a autoridade de Nosso Senhor Jesus Cristo, dos bem-aventurados Pedro e Paulo e a Nossa, proclamamos, declaramos e definimos ser dogma divinamente revelado que a imaculada Deípara, sempre Virgem Maria, completado o curso da vida terrestre, foi assumida em corpo e alma na glória celeste” (Constituição Apostólica “Munificentissimus Deus”. Em: Denzinger, Heinrich. Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral. Traduzido por José Marino e Johan Konings. – São Paulo: Paulinas: Edições Loyola, 2007, p. 864ss.).

Objetivando esclarecer alguns aspectos deste dogma, Jean-Claude Michel, diácono permanente e membro da “Communauté des Béatitudes” escreveu o livro Assunção de Maria, um êxtase de amor. Valendo-se de um paralelo entre as palavras assunção e ascensão, o autor explica o sentido do dogma da Assunção nas seguintes palavras:

 “Etimologicamente, a assunção é definida como sendo o ato pelo qual Deus transportou a Virgem ao céu em corpo e alma. Esse ato distingue-se da ascensão, própria de Jesus, que é o fruto da vontade de Deus feito homem, pelo fato que procede de uma intervenção divina. A ascensão é um fruto de Deus, nele e por ele mesmo, ao passo que a assunção de Maria é uma coroa misericordiosa da glória concedida à humilde serva por seu criador” (p. 5). Quando estive em Israel, tive oportunidade de visitar a Igreja da dormição da Virgem. No interior do templo pode-se contemplar uma bela imagem da Virgem no que seria seu leito de morte. No entanto, conforme nos explicou o guia, a Virgem Maria não morreu, apenas adormeceu, sendo, a seguir, assunta ao céu.

A exemplo do que tem acontecido quase sempre que a Igreja proclama um dogma, este também não foi isento de controvérsias, motivadas especialmente por essa questão: Nossa Senhora conheceu ou não a morte? O assunto é objeto de investigação pelo autor aqui comentado, que escreve, a propósito: “Maria, não tendo conhecido a morte, poderia ter adormecido como o afirmam certos padres, tais como Teodoro Abu Qurra, que viveu em 820 um sono extático, parecido àquele que Adão conheceu, quando Deus tirou Eva de seu lado!” (p. 24).  

Conclui, porém, depois de discutir ambas as possibilidades, de que Maria tenha ou não experimentado a morte: “Morte ou sono para Maria? Não saberemos senão quando tomarmos parte no que ela viveu. É bom que uma parte do mistério permaneça, porque estimula nossa caminhada de fé. Temos, todavia, uma certeza que Maria é ´cheia de graça`, coberta pelo Espírito do amor de Deus, que deixou incessantemente transformar-se e se conduzir pelo seu amor. O fim de sua vida terrena não pode ser senão uma apoteose do amor, o que pode nos fazer pensar que Maria viveu a passagem para seu Filho em um êxtase de amor” (p. 24).