Sincronicidade

Histórias de sincronicidades

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Eu disse aos ouvintes que estava em busca de histórias. Essas histórias tinham de ser verdadeiras e precisavam ser curtas, mas não haveria restrição quanto ao tema ou estilo. O que me interessava mais, expliquei, eram histórias que desafiassem nossas expectativas em relação ao mundo, casos que revelassem as forças misteriosas e incognoscíveis que atuam em nossas vidas, em nossas histórias de família, em nossas mentes e corpos, em nossas almas. Em outras palavras, histórias verdadeiras que parecessem de ficção.

Paul Auster

[Auster, Paul (organização e introdução de). Achei que meu pai fosse Deus e outras histórias da vida americana. Tradução Pedro Maia Soares. 2ª. reimpressão. – São Paulo: Companhia das Letras, 2005, p. 14.]

Há alguns meses, numa de minhas sessões de análise, eu e meu psicanalista conversávamos sobre sincronicidades. Falávamos de alguns daqueles acontecimentos surpreendentes pelos quais qualquer pessoa já passou pelo menos uma vez na vida. Não faltaram relatos de ambas as partes, minha e do psicanalista, de fatos acontecimentos conosco. Foi aí que ele indagou se eu conhecia o livro de Paul Auster, Achei que meu pai fosse Deus. Como eu respondesse que não, ele completou: “Vasco, você precisa ler este livro. Olha, ali há histórias extraordinárias, você vai gostar muito da leitura”.

Como sempre acontece cada vez que alguém me dá uma sugestão desse tipo, saí da sessão de análise direto para a livraria Cultura.

Paul Auster

Como não encontrasse o livro por lá, no caminho ainda passei na Nobel e, a seguir, na rua mesmo, estacionei o carro e liguei para a Saraiva. Nenhuma delas dispunha do livro. O jeito foi encomendar.

Uma semana depois eu recebia a ligação da livraria Cultura dizendo que o livro chegara. São 390 páginas que li em quatro dias. Quase não conseguia largar o livro. Ao longo da leitura experimentei emoções e impressões tão intensas ante algumas histórias, que cheguei a sentir certo temor devido ao meu envolvimento com os relatos.

Paul Auster, o autor, nasceu em 1947 em Newark, Nova Jersey, Estados Unidos. É poeta, tradutor, crítico de cinema e literatura, romancista e roteirista de cinema. Conforme relata na Introdução, o livro foi consequência de uma proposta que ele recebeu do apresentador Daniel Zwerdling, da NPR – National Public Radio, para fazer um programa na rádio. Não sendo radialista, ele pensou em recusar. Ao falar do convite para sua esposa, porém, ela sugeriu que ele o aceitasse. Poderia pedir aos próprios ouvintes que enviassem por escrito suas histórias e ele escolheria algumas para ler durante o programa. Recebeu uma enxurrada de narrativas pessoais, algumas tão surpreendentes que resolveu publicá-las em livro. Daí surgiu Achei que meu pai fosse Deus e outras histórias verdadeiras da vida americana.

Durante a leitura dos relatos selecionados por Paul Auster somos levados a experimentar as mais diversas emoções, num contínuo que vai do riso ao choro. Quer queiramos ou não, em diversas ocasiões experimentamos uma intensa identificação com o narrador, porque, no fim das contas, quem está falando ali é uma pessoa como nós, passível das mesmas emoções e dramas pessoais.

Como diz o autor: Mais do que nunca, passei a apreciar com que profundidade e paixão a maioria de nós vive dentro de si mesma. Nossos afetos são ferozes. Nossos amores nos dominam, nos definem, apagam as fronteiras entre nós e os outros (p. 17).

Mas o que surpreende mesmo são as histórias de sincronicidades, relatos de incríveis e inexplicáveis coincidências que desafiam o nosso senso de realidade e, muitas vezes, põem de cabeça para baixo nossa vã e canhestra filosofia. A propósito, afirma Timothy Ackerman, autor de um dos relatos publicados no livro, intitulado Vidas paralelas:

Alguém me disse uma vez que a sincronicidade ocorre quando nossos anjos pessoais nos dizem que estamos no lugar certo na hora certa. Migalhas de pão para o destino (p. 341).

Achei que meu pai fosse Deus é um livro para ler, se emocionar e, sobretudo, se surpreender.