Sincronicidade

G.H. vinte e cinco anos depois

Este livro é como um livro qualquer. Mas eu ficaria contente se fosse lido apenas por pessoas de alma já formada. Aquelas que sabem que a aproximação, do que quer que seja, se faz gradualmente e penosamente – atravessando inclusive o oposto daquilo que se vai aproximar. Aquelas pessoas que, só elas, entenderão bem devagar que este livro nada tira de ninguém. A mim, por exemplo, o personagem G.H. foi dando pouco a pouco uma alegria difícil; mas chama-se alegria.

Clarice Lispector

[Lispector, Clarice. A paixão segundo G.H.: romance. – Rio de Janeiro: Rocco, 2009, p. 5.]

Li A Paixão segundo G.H. em 1987, há vinte e cinco anos, portanto. Foi uma leitura avassaladora. Foi uma descoberta, uma descoberta de amplas e incalculáveis proporções. Para falar dos efeitos da leitura de Clarice Lispector na minha vida, no meu ser, em tudo que sou, não posso me permitir ser parcimonioso no uso das palavras; tenho que usar, necessariamente, expressões que deem pelo menos uma ideia do que eu gostaria de expressar. É por isso que digo uma descoberta de amplas e incalculáveis proporções, porque foi assim, de fato.

Há autores que me provocaram inquietantes reflexões e deixaram em mim marcas indeléveis, como Nietzsche e Cioran. Nenhum outro autor, porém, antes ou depois – nem mesmo esses dois -, tiveram o condão de me proporcionar um mergulho em dimensões tão profundas e inexploradas quanto Clarice Lispector. Ela é única!

Pois bem, me entreguei de corpo e alma à leitura da obra da autora. Cada livro concluído, eu imediatamente adquiria outro e me lançava a ele sem demora. Lembro que, na época, estava estagiando no SOEVOC, que ficava próximo à Praça do Carmo, no centro de Fortaleza. No intervalo do almoço – eu almoçava em um restaurante ali perto -, eu ficava na Praça lendo Clarice Lispector até o início do expediente. Eu não largava a leitura.

Alguns livros li mais de uma vez, como A maçã no escuro, Água Viva e o mencionado A paixão segundo G.H. Passei ainda muito tempo relendo trechos. Em 1987, durante uma reunião em que deveríamos escolher como seria o nosso convite de formatura, foi sugerido que alguém propusesse uma frase para figurar na primeira página. Propus uma frase da Clarice Lispector, claro: A loucura é vizinha da mais cruel sensatez.

Imediatamente, uma colega, a Eliana Olinda, disse que também queria propor uma frase e as duas seriam postas em votação. Quando ela proferiu a frase, no ato retirei a minha proposta e disse: fico com a dela. Todos concordaram e ela foi impressa no convite. Nem precisa dizer que era, também, uma frase da mesma autora, que se encontra na página 20 de Água viva:

Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não, quero é uma verdade inventada.

Agora, vinte e cinco anos depois, decidi reler a obra completa de Clarice Lispector. E comecei hoje por A paixão segundo G.H. Na primeira página do livro ela escreveu algo que pode ser tomado como uma espécie de advertência, sugerindo que gostaria que aquele livro fosse lido apenas por pessoas de alma já formada. Bem, quando o li pela primeira vez, eu tinha, então, vinte e seis anos incompletos. Não sei se eu já tinha uma alma formada. Hoje, com quase o dobro da idade, continuo sem saber se minha alma já se formou – desconfio que não. Mesmo assim, iniciei a leitura. Quero ver que sensações experimentarei em face de um novo contato com as elucubrações clariceanas, tanto tempo depois.

Um detalhe: adquiri sábado um novo exemplar de A paixão segundo G.H. para a leitura que hoje inicio. Não quero ter qualquer contato com a edição que li há vinte e cinco anos, pois está toda grifada e cheia de observações e reflexões às margens das páginas. Não quero me deixar contaminar pelo que vivi e senti quando da primeira leitura da obra. Pretendo fazer o mesmo com todo o restante da obra.