Sincronicidade

Um tratado da mais alta espiritualidade

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Se não puderes perseverar por amor, obriga-te com santo zelo e passa pela porta estreita da contemplação, porque Deus dá a graça do saber àquele que se atreve a perseverar. Considera que Deus te fez unicamente para a oração. Ele não exige outra coisa de ti, a não ser que O adores em espírito e verdade. Assim, tua habilidade nesta arte será treinada, na qual um dia serás mestre.

Francisco de Osuna

[Osuna, Francisco de. Terceiro Abecedário da vida espiritual. 3ª. edição (revista e ampliada). Tradução de Adolfo Temme. Petrópolis, RJ: Família Franciscana do Brasil (FFB), 2007, p. 8.]

Tinha ido à igreja do Coração de Jesus para a missa da primeira sexta-feira de junho, e, ao sair, passei pela lojinha que fica na sacristia, pra dar uma olhada nos livros. Qual não foi minha surpresa quando, ao examinar as publicações expostas na vitrine, me deparei com uma edição do Terceiro Abecedário da vida espiritual, de Francisco de Osuna. Sem me conter, tratei de pedir imediatamente ao atendente que me mostrasse um exemplar. Era ele mesmo, o livro ansiosamente procurado por mim há mais de uma década. Poucos minutos depois eu saía da igreja feliz da vida com a valiosa aquisição.

Todo leitor de Santa Teresa d´Ávila anseia por conhecer o Terceiro Abecedário. Francisco de Osuna, o autor, nasceu na Espanha, em 1492. Depois de entrar para a Ordem Franciscana, numa ala chamada dos Observantes, que tinha como meta principal o exercício da contemplação, Osuna se tornou aluno e, posteriormente, mestre de espiritualidade. Um dos frutos dessa maestria seria a redação do Abecedário Espiritual, escrito entre 1525 e 1554, e dividido em seis partes, que constituem os seis abecedários: a Paixão de Cristo; a preparação para a disciplina ascética; a união mística com Deus; os mistérios do amor; uma guia para o rico e uma consolação para o pobre; tratado sobre as chagas de Jesus Cristo.

O Terceiro abecedárioa união mística com Deus -, foi redigido em 1527. Um exemplar do livro chegou às mãos de Santa Teresa d´Ávila em 1538, numa ocasião em que ela estava no auge de uma crise espiritual, sem ter quem a orientasse em sua busca de Deus . Foi para ela como uma tábua de salvação, em momento tão crucial de sua jornada. O exemplar que pertenceu a Santa Teresa é conservado até hoje, e nele se pode ver as anotações feitas por ela durante a leitura.

O livrinho, apesar de pequeno – a edição que adquiri tem apenas 76 páginas -, é, no entanto, de valor incomparável em se tratando da forma como o autor aborda a temática da busca da união mística com Deus. Devido à complexidade e profundidade do assunto, logo nas primeiras páginas adverte Osuna:

Há gente que não vai gostar de que eu passe um exercício de tão alto valor a pessoas mergulhadas em pecados e metidas em negócios mundanos. A isto quero responder que ensino e escrevo somente para a pessoa, seja quem for, que guarda os mandamentos de Deus (p. 6).

E logo a seguir, dá um conselho aos que porventura desistam de iniciar a jornada por julgar que, para nela adentrar, precisarão de conhecimentos muito rebuscados:

Vem e procura aqui tua paz. Não penses que precisas entender a lógica e a metafísica para poder dedicar-te à oração contemplativa. A teologia mística (que é sinônimo de contemplação) encontra-se na escola do coração. Diferente da teologia escolástica, ela pode ser adquirida por qualquer fiel, homem ou mulher, independente do grau de instrução. Até podemos dizer que doutores e dignitários têm mais dificuldade em conquistar a necessária quietude e o despojamento da alma do que pessoas simples, que não têm o peso de cargos e deveres públicos (p. 6).

O lugar privilegiado para a realização desse grandioso projeto é o próprio coração humano. É em nossa interioridade que se dá o encontro mais profundo com Deus.  A propósito, escreve o autor: Também Deus, nosso Senhor, que não se satisfez com o paraíso celeste, mandou construir na terra um castelo para a sua alegria: o coração humano (p. 53). Para quem conhece a obra de Santa Teresa d´Ávila, é impossível não encontrar aqui o primeiro fundamento e inspiração para aquela que seria a grande obra de sua vida, um dos maiores tratados sobre a oração e a vida espiritual de todos os tempos, o Castelo Interior, onde a mestra avilesa equipara, também, a alma humana a um castelo.

Para que a jornada aconteça de forma segura, adverte o autor, o castelo precisa estar bem protegido, contando, para tanto, com três forças muito importantes e necessárias:

A alma tem três forças principais: a força da inteligência com a qual se governa, a força da coragem que é sua defesa e a força do querer com a qual providencia tudo de que precisa. Estas três forças devem ser os vigias do castelo do nosso coração, para que ele esteja seguro de todos os lados (p. 52).

Fiz uma primeira leitura do Terceiro Abecedário sem me deter muito. Queria, primeiro, conhecer o inteiro teor da obra. E que obra! Hoje estou iniciando a segunda leitura, desta feita, uma leitura meditada e pontuada por reflexões. A alegria em fazê-lo é enorme, por saber que estou tendo acesso à mesma trilha na qual minha sempre querida e inimitável Mestra iniciou sua apaixonante trajetória espiritual rumo à união mística.

Para concluir, deixo as encorajadoras palavras de Francisco de Osuna, escritas no capítulo final, intitulado A coroa da vida:

Irmão, se quiseres permanecer sempre na oração e servir a Deus desta maneira, toma este conselho: Orienta tua alma de um modo que ela sinta estímulo a viver todo tempo como na oração. Se fizeres assim, e se o Senhor perceber o teu esforço, ele vem ao teu encontro um pedaço do caminho e te leva adiante. O que começaste em ti ele há de completar por graça. Ele te servirá de coluna de fogo, e esta te guiará, se estiveres disposto a segui-la incondicionalmente aonde ela quiser te levar (p. 73).