Sincronicidade

A vida vista pelos olhos de um gato

Prendi a respiração. Os olhos de Virgílio estavam fixos no meu rosto e o estavam explorando! Então, o bichinho miou de novo e ficou parado como uma estátua.

Estava olhando para mim!

VIVA!

Virgílio estava olhando para mim! Suas pupilas de gato, novinhas em folha, tinham um brilho vigilante, atento.

Meus olhos cravaram-se nos dele, engataram-se, digamos assim, e eu senti-me tragado por aquele olhar.

Era um olhar que perfurava meu cérebro, mas não do jeito de alguém que quer saber o que você está escondendo. Era um olhar mais delicado, nem um pouco ameaçador. Estamos aqui, você e eu, estamos nos contando coisas sem falar. Você e eu. Você e eu.

Silvana Gandolfi, pela boca de Dante, personagem de Olho Mágico

[Gandolfi, Silvana. Olho mágico. Tradução de Mario Fondelli. – Rio de Janeiro: Rocco, 2008, p. 41.]

Imagine ver a vida pelos olhos de um gato. A mim, a ideia nunca tinha ocorrido, embora conviva há muitos anos com dois maravilhosos felinos, Jesmim e Harry. Compartilho com Indira, minha filha, o fascínio por esses animais tão maravilhosos, os gatos. Por esse motivo, sempre que vemos um livro em que eles estejam, de alguma forma, presentes, tratamos logo de adquiri-lo. Foi o que aconteceu com Olho mágico, livro de autoria da italiana Silvana Gandolfi, publicado no Brasil pela editora Rocco na coleção Jovens leitores.

Pois bem, foi só iniciar a leitura para que eu me sentisse preso, de forma irresistível, à maravilhosa trama construída pela autora. Fiquei tão envolvido que só larguei o livro quando cheguei à última página.

Logo no início da história, Cósimo Dolente, um velho professor que vive sozinho numa casa que mais parece um laboratório de um alquimista dos tempos medievais, faz a Dante, um garoto com problemas de dislexia que lhe é confiado pela avó para que tenha aulas de reforço escolar, uma instigante afirmação:

Se duas pessoas tomam chocolate quente juntas, podem ler os pensamentos uma da outra. Sabia disso, Dante? (p. 23).

Apesar do que falou sobre o chocolate quente despertar em Dante uma grande curiosidade, as palavras mais instigantes do professor Dolente, porém, ainda estavam por vir. Elas são proferidas quando ele diz ao garoto que qualquer pessoa que esteja olhando fixamente nos olhos de um gatinho recém-nascido, no momento exato em que ele abre os olhos pela primeira vez, adquire imediatamente a faculdade de ver tudo o que o gato vê a partir de então. Nem precisa dizer que Dante fica fascinado com a possibilidade, principalmente porque Tita, uma das gatinhas do professor, estava esperando filhotes para breve.

Quando eles nascem, o professor presenteia Dante com um filhote, que logo mais receberá o nome de Virgílio, o poeta que conduziu Dante, o autor da Divina Comédia, em sua jornada pelo inferno.

A partir do momento em que Virgílio, o gatinho, nasce, Dante, o garoto, só tem uma meta: postar-se à sua frente fitando seus olhos até que ele os abra pela primeira vez, o que, de fato, consegue levar a bom termo.

Depois disso, tem início uma grande epopeia, em que Dante, pelos olhos de Virgílio, viverá uma aventura maravilhosa, com final surpreendente, digna dos melhores romances policiais.

Silvana Gandolfi, a autora de Olho mágico, nasceu em Roma e vive no centro histórico da cidade. Já escreveu romances para adultos, novelas para rádio e breves trabalhos de dramaturgia. Nos últimos tempos, vem se dedicando intensamente aos livros infantis, buscando inspiração em suas viagens para todos os cantos do mundo. Esteve na lista de honra do maior prêmio para a literatura infantil, o Hans Christian Andersen, e também recebeu outros importantes, como o Prix Cento e o Prix Arpino.

Fiquei tão envolvido com a leitura de Olho mágico, que devorei suas 190 páginas em apenas um dia. É uma leitura para jovens e adultos mas… se você, assim como eu, gosta de felinos, e, melhor ainda, tem o privilégio de conviver diariamente com essas criaturinhas encantadoras, vai se deleitar na companhia de Dante, do professor Dolente e do gatinho Virgílio.