Sincronicidade

As sombras de onde se projetam fachos de luz

Desde que comecei a entrevistar escritores, há pelo menos duas décadas, sempre me impressionei com seu desamparo, com o abandono do homem massacrado pelas leituras que se aderem à obra, e me interessei mais por essas zonas sombrias em que eles travam suas batalhas, pelas pequenas torturas impostas pelo mercado e pela crítica, pelas exigências da vaidade, pela loucura enfim que toma conta de um homem quando ele se posta diante do papel em branco, do que pelas imagens sofisticadas e cheias de glamour que a mídia constrói a seu respeito. A julgar por essa imagem pública, escritores são indivíduos de ânimo firme, sempre cheios de coisas a dizer, que vivem uma rotina espetacular, habitando um mundo restrito, dedicado ao transe, às homenagens e à aventura. Mas escrever inclui farta dose de entrega, de abandono, de devassamento, e impõe um combate contínuo contra o orgulho, o desespero e a solidão, destino que faz dos escritores, quase sempre, seres suscetíveis e irrequietos, que carregam sonhos além de suas forças.

José Castello

[Castello, José. Inventário das sombras. – 3ª. ed. – Rio de Janeiro: Record, 2006, p. 7.]

No ensaio que abre o livro Inventário das Sombras, do jornalista e escritor José Castello, afirma o autor: Maio de 1976. Na redação de O Globo, jornal para o qual colaboro, espalha-se a notícia de que Clarice Lispector decidiu nunca mais receber a imprensa. Um motivo suficiente para que me encomendem uma entrevista com a escritora. Jornalistas têm uma atração sem limites por obstáculos; vivemos tentando superar barreiras, abrir portas, vencer resistências, ultrapassar fronteiras. Não é esse o meu temperamento, mas é o que a profissão me obriga a exercitar (p. 20).

A partir desse ensaio inicial, sobre a sempre enigmática e fascinante Clarice Lispector, o leitor tem acesso a quinze deliciosos ensaios em que José Castello penetra a intimidade de 13 escritores, um jornalista quase escritor e um esquizofrênico genial que fez da loucura arte.  Ao nome de cada figura retratada no ensaio, o autor pospôs um subtítulo, que, em que pese a síntese, característica própria de um subtítutlo, já diz muito do personagem de quem vai se ocupar o texto.  São eles:

Clarice Lispector – A senhora do vazio; João Antônio – A arte de ser João; Caio Fernando Abreu – O poeta negro; Alain Robbe-Grillet – Viagem ao castelo; Hilda Hilst – A maldição de Potlatch; Manoel de Barros – Retrato perdido no pântano; Nelson Rodrigues – Tapuia e grego; Adolfo Bioy Casares – À meia-luz; Raduan Nassar – Atrás da máscara; Ana Cristina Cesar – A deusa da Zona Sul; José Saramago – Na ilha dos vulcões; Dalton Trevisan – O manto do vampiro; José Cardoso Pires – A morte branca; João Rath – O escritor que não escreveu; Arthur Bispo do Rosário – O mordomo do apocalipse.

À guisa de adendo, o autor inclui, ainda, uma lista de livros cujo leitura, segundo afirma, teve papel muito importante na realização do trabalho. O objetivo almejado por ele, ao redigir a obra, é explicitado no seguinte trecho do Prólogo:

Meu interesse pela literatura aumentou quando descobri homens de carne e osso guardados dentro das narrativas e dos poemas que mais gosto de ler, experiência que, mais tarde, encontrei expressa na sentença de Emerson: “Talento apenas não faz um escritor. Deve haver um homem por trás do livro.” Sempre me interessei mais por esses homens e mulheres que estão ocultos nos livros do que por aqueles sujeitos, resolvidos e às vezes até um pouco ridículos, que pontificam na mídia em seu lugar. Atrás daquelas páginas, há sempre um impulso irreversível, uma sina, talvez uma condenação, que é na verdade o que leva um escritor a escrever (p. 8).

Li Inventário das sombras com o prazer costumeiro desfrutado por mim a cada novo contato com um livro de José Castello. Sua leitura me proporcionou exatamente isso: penetrar o lado obscuro e trágico que jaz lá no íntimo de todo escritor digno desse nome. Nesse aspecto, é isso principalmente o que me faz amar um autor, pois assim posso senti-lo próximo, humano, falível, limitado e, ainda assim e apesar disso, capaz de projetar das densas sombras que o habitam fachos da mais radiante luminosidade.