Sincronicidade

Uma outra espiritualidade

Assim temos, então, na sabedoria dos antigos, as três condições para uma vida humanamente autêntica: aceitar a morte e vencer os medos, ser capaz de habitar o presente e se tornar, com isso, um fragmento de eternidade. Temos aí uma bela definição da vida boa, que não passa por Deus nem pela fé, e também não apaga a finitude humana. É o que chamo espiritualidade leiga.

Luc Ferry

[Ferry, Luc. O anticonformista: uma autobiografia intelectual. Luc Ferry; entrevistas com Alexandra Laignel-Lavastine. – Tradução Jorge Bastos. – Rio de Janeiro: DIFEL, 2012, p. 322.]

Há pouco mais de um mês tive oportunidade de ler uma referência a um filósofo francês que propõe o que ele denomina espiritualidade leiga. O interesse que a ideia despertou em mim foi imediato. Resolvi me informar melhor. Descobri, para minha surpresa, que o Brasil está entre os países onde os livros deste autor são mais lidos. Com vários títulos publicados por aqui, emplacou pelo menos dois nas listas de best sellers. Mais surpreso ainda fiquei quando recordei que tinha na minha estante um livro seu, adquirido no ano 2000, não o tendo, no entanto, lido ainda.

Pesquisei os títulos traduzidos no Brasil e resolvi que me iniciaria no autor pela leitura de O anticonformista: uma autobiografia intelectual. Como o livro se propõe ser uma autobiografia intelectual, concluí que seria esta a melhor forma de iniciação, uma vez que eu teria a oportunidade de conhecer tanto o conjunto do seu pensamento quanto o seu percurso intelectual. Tão logo iniciei a leitura, vi que tinha feito a escolha certa.

Luc Ferry, nascido em 1951 em Paris, é doutor em filosofia e concursado tanto em filosofia quanto em ciência política. Foi Ministro da Educação da França entre 2002 e 2004. O livro aqui referido é uma série de entrevistas realizadas com ele por Alexandra Laignel-Lavastine, doutora em filosofia e ensaísta, especializada na história dos intelectuais.  Dividido em 12 capítulos, ao longo das entrevistas Luc Ferry repassa toda sua trajetória intelectual, desde os anos de colégio até a atualidade.

Para fundamentar a proposta de espiritualidade leiga, acima mencionada, o filósofo francês ancora-se no que chama de “sagração ou divinização do humano”, conforme suas palavras:

Já foi dito, as transcendências de antigamente, se não foram liquidadas, no mínimo amplamente se fragilizaram com a grande desconstrução do século XX, mas não para colocar em seu lugar o imanentismo radical, a recusa do sagrado, o cinismo ou o relativismo moral, como previa a desconstrução e a lógica do mercado encorajava. Na verdade, nós as substituímos por novas formas de transcendência, transcendências que podemos chamar de horizontais e não mais verticais, pois estão voltadas para o outro e enraizadas no humano, e não em entidades situadas acima das nossas cabeças. São os dois traços típicos do segundo humanismo: assenta-se numa concepção pós-metafísica da transcendência, mas também numa transcendência cujo objeto é o ser humano como tal. É o que, desde o fim dos anos 1990, chamo de “sagração” ou divinização do humano (p. 328).

Isso, por sua vez, remete ao conceito de sagrado, que, na proposta de Luc Ferry, não passa pelo sobrenatural, mas pelo exclusivamente humano, conforme explicita:

Entendo por “sagrado” aquilo pelo que, certo ou errado, nos dispomos a fazer sacrifícios ou até mesmo ir ao sacrifício final. Em paralelo ao crescimento dos valores da intimidade, a Europa registrou uma incrível erosão das motivações tradicionais para o sacrifício – e aproveito para dizer que vejo nisso a melhor novidade do século, ou até do milênio! – mesmo que (infelizmente) tudo se passe de maneira bem diversa em outros lugares (penso no terrorismo ou no islamismo integrista). Com relação ao outro, ao próximo, aos nossos próximos e aos nossos filhos, pelo contrário, nós europeus certamente nos prontificaríamos a certos riscos, até de morte, e, quanto mais amamos, mais a observação é verdadeira. Quando falo de “sacralidade” do ser humano, estou querendo dizer que ele passou a representar, para a maioria de nós, o único objeto pelo qual seja possível se sacrificar (p. 329).