Sincronicidade

Flanando e garimpando na Bienal Internacional do livro do Ceará

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Flanando talvez não seja bem a palavra adequada para intitular este texto, mas, vamos lá, deixemos como está. De qualquer forma, flanamos, apesar das vagas de gente que iam e vinham pelos apertados corredores – melhor dizendo, ruas, pois os corredores foram transformados nas ruas do centro de Fortaleza, indo dar, para quem se dispuser a trafegar por entre livros e autores, numa simpática Praça do Ferreira com coluna da hora e tudo.

Impossível, porém, uma vez tendo chegado à praça, resistir à tentação de sentar numa das mesas do Café Java, onde se reuniam os talentosos e bem-humorados padeiros que, na última década do século dezenove, amassavam o pão das letras que constituiria, no futuro, uma das glórias da literatura alencarina. Não encontrando, entretanto, nenhuma mesa disponível, o jeito foi engolir em seco a decepção por não poder tomar ao menos um café e seguir em frente.

Logo adiante uma simpática senhora acenava, conclamando os transeuntes a assinarem o manifesto pela fundação do Museu da Imprensa do Ceará. Claro que atendemos prontamente ao convite. Uma curiosidade: sobre o balcão, uma máquina de datilografar olivetti, e, ao lado, um banquinho. Uma oportunidade para quem quisesse reviver os velhos tempos ou, como acontecia naquele exato momento, experimentar, pela primeira vez na vida, a emoção de datilografar algumas linhas.

Bem acomodado no banquinho, um garoto de uns cinco ou seis anos, usando apenas os indicativos, pressionava, lentamente, as letras do teclado, que estalavam secas sobre a folha branca de papel fazendo brotar palavras instantaneamente.  Talvez ele estivesse fazendo a curiosa descoberta de que, diferentemente do computador, em que se digita o texto para depois imprimir, ali as palavras eram registradas no papel simultaneamente à digitação. Que novidade! Uma experiência, certamente, para guardar na memória pelo resto da vida.

Assinado o manifesto, era preciso seguir, não sem antes dar uma ligeira olhada nos livros expostos no estande. Livros que falavam, especialmente, de jornalismo. A próxima parada seria o estande do Armazém da Cultura. Queríamos adquirir um exemplar do livro do prof. Airton de Farias, História do Ceará, o que de fato fizemos, com direito a autógrafo e fotografia ao lado do autor.

Mais adiante, uma emoção nos aguardava. Acontece que entramos no estande do Museu do Ceará. Foi grande a surpresa quando me deparei, entre os livros expostos, com  “O porteiro da religião: os escritos de Manezinho do Bispo”, livro cuja organização e notas se devem a Geová Lemos Monteiro.

Peguei um exemplar e, abrindo aleatoriamente, pude ler duas sentenças que fizeram-me contorcer de rir. A primeira, na página 30, asseverava:  “Todo homem ou mulher vaidoso ou dosa que pode e não ama o seu país, eu só comparo com esses bocórios comedores de banana com rapadura”. Na segunda frase, igualmente hilária, escreve Manezinho do Bispo: “O Passeio Público é um aprazível lugar para quem vai ali com boas intenções”.

Desde que lera um texto do Manezinho do Bispo quando ainda fazia faculdade, em que ele concluía com as palavras: “Por essas e por outras tantas é que sempre digo: quanto mais principalmente”, nunca mais desisti da ideia de algum dia encontrar uma publicação que reunisse os seus maravilhosos escritos.  Finalmente eu tinha em mãos um exemplar com a obra quase completa do nosso singular poeta-porteiro, um verdadeiro festival de nonsense e jocosidade. Fiquei deveras emocionado e feliz com a aquisição.

A partir daquele momento, já poderíamos voltar pra casa. Eu estava bem munido com duas grandes obras a que me dedicar nos próximos dias, ambas tratando de um mesmo tema muito querido: o nosso Ceará. No caso do professor Airton, a História do estado contada por um dos nossos mais abalizados historiadores da atualidade; no outro, textos emanados da pena de uma figura extraordinária, curiosíssima, que involuntariamente passou a constituir a galeria de tipos populares da nossa terra, tipos esses que tão bem expressam um certo jeito de ser muito nosso, que singularizam e, por isso mesmo, tornam único o povo cearense.